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30 de outubro de 2011

Isto é uma confissão às avessas. Minha alma padece de um tipo de doença que não tem cura. Não existe soro do esquecimento ou prática imunizatória à carência de você. Estou acometido por uma desnutrição severa da alma, tão poderosa a ponto de aniquilar qualquer tentativa de socorro que tenho tentado, há meses, operar. Não reconheço mais meu espírito no espelho porque tua alma deixou rastros inocultáveis por sobre ele. Você esqueceu de me avisar que os teus desenhos são inolvidáveis, que tuas palavras são inapagáveis, e que teus toques são irremovíveis de qualquer memória. Fui condenado à pena perpétua de te amar sem direito a contraditório e ampla defesa; e hoje, passada a paixão, me sinto como um dependente químico reincidente, contumaz e falível no desejo por você. Estou rendido às tuas lembranças como um algoz para com a execução de um condenado. Não tenho mais forças para lutar. Minha dependência emocional me declarou vencido pelo tempo, e só me resta contemplar a vida passando pela janela, como um exímio condenado à espera da morte, que cedo ou tarde, como o grande amor de nossas vidas, sempre vem para nos fazer partir.   

13 de dezembro de 2010

Porque nada é absoluto. Milhares de folhas verdes escuras e claras se chocam lá fora com o vento incessante e gelado que transformou essa cidade em cinza em plena primavera quase verão. E hoje eu me sinto no outono quase inverno. Só que ao contrário. Minha pele em riste parece denunciar uma espécie de falta transmutada em amargura e dor que acaba por me levar a um choque interno intenso e íntimo. Dezenas de correntes me elevam a uma altura que nunca estive e orquestradas me soltam em direção ao chão que não é só meu destino mas sim meu túmulo mais supulcral e definitivo. Quando eu disse que te amava pela primeira vez eu experimentava todo o prazer único, exclusivo, intenso e inesquecível de se entregar pra alguém que se entrega pra você, e nossos corpos foram um só porque eu nunca havia sentido a vontade e o desejo e o amor carinhoso e permeável e intenso e bonito e valente e corajoso que eu senti por você. Eu só queria que esse outono quase inverno fosse aquele nosso verão do avesso perfeito e desenhado que havíamos nos prometido. Eu te desejo toda a liberdade do mundo porque teus olhos inocentes e reticentes e molhados e suaves são o retrato de um homem brilhante, único, singular e idealizado de forma potencializada pela dor de amor que eu sinto agora por você. Que essas rajadas geladas e sombrias lá fora consigam petrificar e pacificar tudo de mais especial que vivemos juntos dentro de mim.

4 de janeiro de 2010




Resumindo são mais do que algumas simples considerações.  É mais ou menos como um fim de tarde desses de céu rosado, e com uma estrela brilhante e única que eu pude assistir esses dias lá longe naquelelugar fechado e fundo e vazio. E até lá tem desses fins de dia pra se ver. Eu acho que eu fiquei tempo demais me escondendo nas tuas sobras, me alimentando daqueles poucos pedaços de tudo que você deixava cair, de algumas migalhas que escorregavam do teu prato cheio de comida. Eu cansei de ser espectro, fantasma, assistente, coadjuvante. E vem sempre aquela sensação de frio da realidade,  de medo do choque, todas aquelas borboletas vivas e coloridas que forram meu estômago de vez enquando. Acho que eu estou escrevendo isso hoje porque ando meio tomado pelo silêncio e pelo cansaço, pela calma, do esgotamento e uma espécie não-ruim de penúmbra, me sinto livre e preso numa atmosfera meio escura meio clara que nunca me foi simpática. E em verdade acho que você ainda é uma das únicas, poucas e últimas coisas que ainda consegue despertar meus demônios, fazer falar os dragões, desnudar minhas fraquezas mais gritantes,  quase só você consegue me dar aquele ímpeto efêmero de me fazer traduzir pelas letras que eu costumo depositar aqui, nesse esboço patético do eterno adolescente que eu ainda custo a acreditar às vezes que eu me tornei.


11 de dezembro de 2009


FODA-SE VOCÊ. FODAM-SE AS BOCAS MACIAS. ODEIO SOFRER POR VOCÊ. VAI EMBORA. EU NÂO AGUENTO MAIS TE AMAR E TE QUERER S. F. D. P.

3 de dezembro de 2009




Uma gota de suor lhe escorria o corpo e juntava-se às outras que já molhavam o chão, em alguns minutos eram dezenas, e ininterruptas um lago formavam aos seus pés. Um esgotamento lhe percorria a mente e lhe cegava de forma definitiva, nada mais conseguia ser elaborado por aquela mente convulsa e inoperante. Um semblante cansado lhe estampava o rosto e pouco a pouco seus olhos cediam a força da desistência e não havia mais esboço algum que conseguisse transmitir pela face. O medo lhe gelava a alma, e estático o tempo parecia não resolver nenhum de seus velhos problemas, que na verdade eram novos, renovados, perplexo pelo reflexo do que vinha ao seu encontro não conseguia compreender o que eram aquelas formas e aqueles vultos. Em verdade o passar dos anos não havia solucionado nada, nenhum dos problemas havia sido solubilizado, apenas a vida havia por postergar-lhes o confronto, houve apenas um movimento no sentido de tardar o encontro com a verdade, que não se transveste, não perdoa, é imutável, perene, absoluta. Naquele dia o relógio havia quebrado, e os ponteiros pareciam girar do avesso e ao contrário numa ciranda macabra,  parecia então, que a realidade procrastinada vinha toda à baila pare se fazer valer e seus pensamentos eram tomados pela verdade que escorria de seus olhos fechados e que já não conseguiam mais segurar a força daquela destruição, a desconstrução, a demolição, ele era aniquilado, desmantelado, obliterado, pulverizado. Irrompia do céu azul da primavera uma sombra gelada de um futuro temeroso que o havia por envolver. Em meio à névoa dezenas de espectros negros sem rosto exibiam suas lâminas mortais empunhadas aos milhares, perplexo e molhado pela água fria do prenúncio do fim que agora o havia embebido, e já não se sabia se eram suor ou lágrimas, o garoto fechava ainda mais os olhos na tentativa de não ver, de tentar acordar do pesadelo da realidade e voltar pro mundo do sonho e da fantasia, ele se negava a aceitar o recomeço e o fim, a queda e a humilhação, pesadelo do passado repetido, por ser revivido, resofrido, reencarado. A dor profunda e visceral e o sofrimento que sempre lhe assombraram em suas piores visões e expectatívas pareciam inevitáveis e irrepelíveis e se tornavam reais. Sua sina trágica e dolorosa era mesmo a que lhe fora marcada no dia de seu nascimento e da qual ele, por mais esperança que tivesse e forças reunisse não tinha conseguido vencer. Entregava-se ao azar da existência. A maldição de um passado triste e duro e áspero e de escombros, da miséria da falta e da carência do quotidiano chegava novamente ao presente como uma dádiva dos infernos e o calor de um verão prenunciado era o início de um fim cruel, impiedoso e negro que materializava-se a cada novo segundo da pavorosa e assombrosa maldição da vida a que tinha sido condenado por deus.

1 de dezembro de 2009



Tem uma sombra que me persegue quando você está por perto. É como se todos os demônios e os dragões do subsolo e do além viessem à superfície e iniciassem um ritual macabro tendo por mim como oferenda. É um circo dos horrores bizarro que eu não aguento mais protagonizar. Tem uma espécie de inversão sentimental que você consegue causar, e todas as minhas resistências são transmutadas pela perturbação da tua presença, eu sinto amargura, dor, desconforto excruciante que não cessa até a tua ausência, que tenho desejado cada dia mais e mais. Eu estou com uma dificuldade absurda pra administrar a mim mesmo quando se refere a ti. Você não é quem você acha que é, quem você tenta parecer ser. Quem você é me machuca. E as nuvens que cobrem o meu céu agora estão tão escuras que eu não consigo mais ter noção de certos limiares. Teu magnetismo de composição exterior tem uma capacidade de definhar e envenenar o teu entorno, é uma espécie de maldição do tesouro, só que no final da empreitada não há tesouro, só pesadelo. Eu queria poder deixar o céu claro, fazer com que o teu magnetismo se multiplica-se e ilumina-se aos outros também, mas tua luz é paradoxalmente negra, ela suga tudo ao teu redor, reduz a pó, cinzas, nada. Não sei se você percebeu mas todo mundo que já chegou tão, ou quase tão perto de ti quanto é possível se foi. Não resta ninguém. Nada. E por um tempo eu achei que eu conseguiria restar, haver de ficar, permanecer, resistir. Agora acho que não.Que se eu conseguir vencer a tua gravidade pulverizadora ei de partir, como todos os outros, pra sempre. A salvo de ti e do teu labirinto do tesouro sem tesouro, sem saída, sem vida, sem nada.

28 de maio de 2009


É a maior morte estelar que vou ter que viver. É a plêiade mais cintilante e singular que vou ter de abandonar porque já não consigo mais conviver com sua luz e porque ela me ofusca tanto, e me cega, e me perturba ao ponto de eu perder todas as direções, e todos os sentidos . E por eu não querer mais me sedimentar devido a força da sua luz, e de toda a sua perfeição, que eu me despeço do céu da noite, daquela estrela mais brilhante porque não tenho mais tenacidade, nem força nem nada do que se aproxime ao que já me sustentou, porque aquele brilho é tão intenso e devastador que todas as minhas bases e meus fundamentos foram incinerados e depois o que não foi consumido pelo fogo foi pulverizado pelo choque que sinto com a realidade quando estou perto de você. Eu preciso deixar de olhar pro céu porque a intangibilidade, tanto da perfeição quanto do sentimento são verdades que me desmantelam e me desconstroem. E é como quando uma onda no fim do dia chega firme e leva embora o castelo mais alto e mais pleno da praia porque uma hora ou outra ele voltaria a ser só areia e é função, indissociável, do tempo, levar tudo aquilo que não pode ser pra sempre embora. E esse é aquele em que sucumbo, me curvo, e me rendo ao brilho e a força de tua luz, porque já não consigo mais sobreviver sob tal intensidade e porque preciso voltar a ser, com a urgência de quem luta pela própria vida, aquele pedaço de uma constelação menor na busca pelo avançar do tempo, pra que um dia, eu possa vir a ser, então, tão especial e perfeito como todas aquelas jóias ímpares do firmamento.

25 de abril de 2009


Existe alguma coisa no céu que me encanta. Sinto que o azul do firmamento e as estrelas, e as nuvens, todas, das cores mais diversas, tudo que é celeste prende meu olhar e me tira o fôlego numa sequência que não encontra mais fim. É como quando se está na praia à espera do fim das ondas, numa ciranda que obedece a sina de esperar a vaga melhor por partir, porque você já não sabia mais pra onde ir e agora mesmo é que você tem certeza disso. Existe alguma coisa suspensa no ar e eu acho que ela exala alguma coisa que me lembra liberdade, ou a vontade de ser. Existe uma nota que soa intermitente dentro de mim e que ecoa pelo vento como quem leva a semente que vai desabrochar e nascer árvore um dia, e que está à procura da melhor terra, pra melhor semeadura, e isso depende da força do vento e da sorte da semente. Eu sinto que existe uma casca quebrando, aos poucos, existe alguma coisa a ser dissociada e é aquilo que eu mesmo quero que seja feito em mim. Eu preciso do desprendimento definitivo daquilo que me traz a tristeza e o medo, de todas as sortes, daquela solidão-âncora em terra firme e de todas as decepções possíveis que eu tenho medo de viver. Porque esse é aquele em que eu somo em adição ao que eu escrevi e apaguei outro dia, e porque eu quero te entregar aquilo que eu tenho de melhor, na condição mais especial, no momento ideal, na sintonia mais perfeita que minha imperfeição pode gerar sendo quem sou. E eu queria que eu mesmo soubesse o que é que tem acontecido comigo, porque aquela estranheza parece ser teimosia, e isso é tão bom que hoje eu sinto como se há muito eu tivesse perdido alguma coisa e parece que eu encontrei. E ela tá insistindo em ficar, e o céu continua me atraindo, com aquela força que me hipnotiza e me satisfaz, parcialmente, porque eu ainda não me sinto desacorrentado completamente das correntes todas que me ligam ao tempo, porém eu acredito que a chave de cada cadeado vai chegar a tempo, e se eu conseguir sair daqui pra não chegar tão atrasado naquele dia, eu tenho certeza que o céu vai me fazer sentir, pela primeira vez, que eu consegui ser o garoto que eu me tornei.

15 de fevereiro de 2009

Uma montanha-russa ao contrário, uma estação em que se embarca pra voltar, um vagão de cabeça pra baixo. Tudo aquilo que era pertinente à estação de trem estava do avessso, numa ordem inintelegível, aleatória, caótica e desordenada. Embrulhava o estômago dele ter que ver e presenciar. Sentia como se lhe colocassem uma mão dentro do peito, e lá dentro, era como se um punhal fosse descoberto, silenciosamente posicionado e então ele era rasgado por dentro, mutilado, não havia piedade alguma, não havia misericórdia nem redenção. A dor explodia dentro do seu peito e cegava sua mente, os gritos surdos subiam e desciam pela garganta e ele não conseguia ver mais nada, ouvir mais nada, sentir mais nada. As implosões não cessavam, se sucediam, demoliam cada estrutura, cada resistência, tijolo por tijolo dos muros pretendidos a proteger o castelo. A contradição de sentimentos o aniquilava, e cada segundo a diante naquela montanha-russa às avessas, era como um mergulho no vazio da ausência, da voz que não perpassa a boca, do lábio perdido no escuro, do sorriso que sempre oculta a lágrima. Eu não sei como, mas eu não queria ter olhado pra fora.

12 de fevereiro de 2009


Eu não sei como, mas você deveria olhar pra fora agora.

31 de janeiro de 2009


Minha violência é um monstro às avessas. A energia da dor e do sofrimento alimenta um ser que é como veneno letal condensado, de uma dor mágica e enegrecida pelas formas e pelo tempo. Ela é uma cobra sem boca, uma abelha sem ferrão, um escorpião sem cauda, uma água-viva sem toxina, um orifício sem espinho, um leão sem dentes, um gavião sem olhos. Minha violência não extravasa, ela se dissolve em mim e se acumula em cada extremidade, em cada pedaço de meu corpo, estou tomado pela raiva e pela culpa, e como não consigo extingui-las, nem esquece-las, nem transpassa-las, elas me envenenam, me envelhecem, me definham, minha violência me mata por que ela compete com o ímpeto de vida que habita em mim. Minha raiva e meu ódio não podem ser compartilhados porque não mudam a história, porque não reescrevem meu nascimento, porque não alteram a dor do que passou, as palavras que foram ditas, as cenas assitidas, os socorros não atendidos, minha raiva é como um amor não correspondido, como minha maior e mais profunda paixão rechaçada na mais perfeita comparação, na mesma proporção. Pergunto agora o que faço com toda a dor, a mágua, a raiva, a rejeição, e aqueles dias eternos dessa vida tão curta mais tão marcada, o que fazer de uma vida que começou torta, errada, incompleta. Eu não encontro reflexo do que sinto no mundo palpável, meus sentimentos são indesejáveis, condenados, desaprovados, inoportunos. Onde foi que eu errei é mais uma indagação, da coleção mais absurda e crua que tive de ouvir. Erro? Talvez nascer seja um erro, do qual sempre me atribui culpa. Hoje, com a ciência de que não posso retornar pra tentar ser diferente do que sou me resta a confusão que me domina. Quero encontrar a válvula que libere, a substância que metabolize, a palavra que trucide, o encontro que dilacere, quero que minha violência morra e que não me mate, quero que meu ódio me abandone e me deixe só, como sempre fui e sou, quero que minha mágua parta de mim em cada lágrima como essa, agora, que escorre do lado esquerdo da face, quero paz pro passado que não volta e luz, faço esse pedido de urgência e de entrega, porque meu futuro é negro, as sombras se espalham pelo chão e meus passos são cegos, meu presente de espera e dor é tortura, e eu proclamo, com cada letra de cada palavra que ainda posso proferir, que eu não aguento mais. Minha vida é um acumulo absurdo de lembranças e medos, de rejeições e isolamentos, a solidão que é defesa também é prisão, e a exclusão de um amor que ama e que machuca e que o faz pretendendo incluir é meu maior algoz. Eu não escolhi tanta coisa, a maioria das coisas que aconteceram comigo eu não tive como escolher, como uma criança pode saber o que sentir ou não, o que ouvir ou não, o que assitir ou não, como repartir algo que não pode ser repartido. Eu só não sei das coisas, eu não sei quando, nem onde nem como porém um dia isso tem que acabar, e eu espero, com todas as forças que ainda restam dentro do meu coração, que a esperança continue a me guiar, e que eu saiba subir desse poço, fundo e escuro, gelado e infinito no qual eu cai, e que minha âncora seja leve pras minhas asas, e que não me acorrente, nas profundezas, na pedra mais pesada, pra sempre, até o meu fim.

28 de janeiro de 2009


É no amanhã que sinto a tua falta. Numa daquelas minhas viagens por ai, li um depoimento que foi como um reflexo, me senti escrito como quando você se olha no espelho, e naquele dia, se reconhece naquela imagem que ali está refletida. Sim, eu sinto saudades de coisas que não vivi, eu tenho medo de ficar sozinho e de perder coisas que não me pertencem, é como se eu esperasse por ter aquilo que eu nunca tive mas que eu sinto como deve ser ter. Uma vez eu achava que eu gostava do que não existia, e o fazia por não entender o que eu sentia e por não saber nomear o que me agita, me atormenta, me suga, me injeta, me amortece, me vitamina, me mantém, me segura, me entrega. Eu ainda não sei nomear as coisas mas começo a reconhecê-las, e as desejo, ainda que de forma tímida, culposa e parcial, pra mim e por mim. Não me imagino realizando-as, muitas vezes elas são um combústivel imaterial que me leva em sua direção e que dúvido muito que conseguirei encontrá-las. Meus desejos e sonhos são o que me mantém vivo, é como uma âncora-combústivel, que me alimenta e me acorrenta simultaneamente. Eu sou uma pessoa simultânea, e vivo uma vida una, porém dividida, recortada por condicionamentos materias e sentimentos que não escolhi, é estranho não querer ser quem se é, ou então querer ser quem é porém diferente. Sempre os iguais-diferentes, a busca do outro em você, eu tenho um problema com felicidade. Eu não consigo ser feliz. Eu tenho um vazio, uma dor, uma coisa estranha que me perturba, que me faz nunca querer estar onde estou, que me dá gosto por músicas tristes e que me escraviza dentro de mim mesmo, como um escravo açoitado por um capitão-do-mato que não é ninguém mais ninguém menos do que ele mesmo. Eu ainda sou aquele adolescente atrasado, que está descobrindo o mundo, pela primeira vez, como se sua vida não tivesse sido uma estréia, e sim um ensaio infértil e infrutífero. Foi um fracasso pra ser franco. Naquelas horas de nó na garganta e lágrima pronta pra escorrer, eu sinto como se eu fosse explodir implodindo, e minha vontade é de desligar, sem eufemismo, eu tenho vontade de morrer por que isso me silenciaria, faria aquelas vozes que gritam dentro de mim se calarem e quem sabe aquela coisa que me tortura e me persegue definhe e desapareça com o meu fim. Eu acordo e vivo todo dia movido pela esperança de um dia poder ter o que não tenho, de possuir o que não possuo, de viver o que não vivo e sobretudo o que não vivi. Eu tenho esse desejo absurdo de me realizar, de ser feliz adoidado e de fazer outras pessoas felizes. Meu desejo é de entrega, doação, cumplicidade, troca, amizade, carinho, amor. Eu desejo compreensão e um companheirismo cheio de coisas que se parecam comigo mas que sejam diferentes de mim, para que eu possa estar sempre mudando, me transformando e me compeltando. Numa ciranda que persegue a perfeição e que realiza com maestria a sina da vida. Me imagino numa sacada limpa, fresca, com um vento gostoso, leve, sentado numa cadeira macia, com uma bebida gelada, olhando pro mar lá fora através dos olhos de uma pessoa que olha pra lá e que sorri, que está ao meu lado viva, limpa, brilhante e linda, alguém especial, que mora em mim e que me faz ficar aqui, sempre, na mesma sala de espera.

16 de janeiro de 2009

Era um caminhante solitário, desengonçado, e triste. O vento em seu rosto era fresco, lavado pela chuva ele trazia encerrado em si a noite e o entardecer certeiro e gradual. A grama em seus pés estava verde, viva, vibrante, havia gotas fixas em toda a parte, em toda folha, como se num mosaico salpicado, bicolor e translúcido. No limiar do caminho estavam as pedras, sujas de terra, borradas num marrom manchado, forte e tenaz, ao longe se avistavam os pássaros, partindo, pra longe. E a sua companhia era a canção que tocava todo dia no mesmo tom, cantada pela mesma voz, acompanhada pela mesma dor, uma dor que não lhe doia na perna, no braço, ou nas costas, era uma dor estranha, intensa e branda ao mesmo tempo, uma dor que não passava, que esmorecia e revigorava-se sempre, uma tristeza leve e persistente. Seus pés calçados ignoravam a sola de seus calçados, e estavam molhados, atendiam ao tato sentindo a água gelada da chuva, intermitente, teimosa, cinza, como se os céus fizem a sua vontade. O garoto tinha lágrimas guardadas, extravasando, enchendo-lhe, na borda de sua razão, a fonte de sua distinta resistência. As árvores balançavam ao som do vento, como se em sintonia, ora leves, ora agitadas, elas cantavam ao seu modo, acompanhavam seu caminho, correspondiam à sua presença com sinais sonoros. Ele caminhava devagar e deixava a água escorrer por suas roupas, agora encharcadas, e tentava fixar seu olhar no horizonte, nublado, turvo, inconsistente. A palma de suas mãos mexia em seus cabelos como forma a suavizar sua tristeza, quem sabe talvez elas procurassem uma entrada para sua mente, uma forma de apalpar o que doia, de retirar o que latejava, de atenuar seus sentimentos, gastos, confusos, inconformados, marcados pelo caminho que jazia pelos seus passos traçados. A noite caía mais uma vez, junto dela raiava a primeira estrela, luzindo, perene, no começo do céu, acima da borda nublada e ainda clara pelos restos do dia. Suas roupas estavam pesadas e seu corpo já não lhe respondia mais como antes, cada passo era mais gelado, difícil, e cansado, e suas memórias vivas pareciam lhe dizer pra parar, pra encerrar essa jornada louca, solitária, esperançosa e penosa. Cada árvore acomodava-se agora que o vento arrefecia, grilos, esparços e cigarras, juntas, emitiam suas vozes com vigor, paixão e vontade, sensações e sentimentos que o abandonavam pouco a pouco, sua vida era como uma âncora em terra firma a ser carregada, apesar do costume, ela nunca estivera tão pesada, e residia nesse fato, da fadiga e do esgotamento, a essência dessa dor crescente e forte, uma desesperança tão real e palpável que ele já sentia o frio da noite nos olhos que marejavam e soltavam aquelas lágrimas salgadas, concentradas, retidas, e ele cedeu à força do peso, e sentou, na noite caindo, fria e gélida, sob aquela chuva sem vento, numa paz irônica e cruel, sob os pontos cravados de estrelas longínquas no céu e sonhos perdidos nos seus passos, pelo caminho marcado, que ficava para trás, sozinho.

11 de janeiro de 2009



Era como uma praia cinzenta, num inverno incessante, num fim de tarde nublado, gelado e escurecendo. Seu interior tinha tantas semelhanças com aqueles cenários, paisagens que traduziam suas emoções, cada novo dia, mesma vida estática, congelada, derretendo aos poucos, num degelo que obedece a uma lógica absurda e inversa. Ele sempre chegava a conclusão de que estava cansado. Um nada sempre adormecido despertava, e com ele a força destrutiva e irrefreável do vazio. Um silêncio tão gritante e pavoroso que extinguia cada sopro de vida, que eliminava cada feixe de luz, que definhava cada sonho, detalhe por detalhe, e os desfiava até sobrar um monte de ilusões gastas, recicladas, novas e velhas simultâneamente. As folhas que ele teimoso fez nascer, e brotar, e ganhar envergadura cediam ao passado de ausências, dor e medo e emagreciam como sua face jovem e marcada. O caule que sonhava ser vistoso, e que havia estado na transição de seu verde juventude para o marrom adulto, interrompera seu ciclo, ele enegrecia e se tornava mole, como se num choro interno, morrendo, não pudesse pedir socorro mas pedia. Ele tinha vontade de renascer ele diferente. Como o sol que irrompe a escuridão de cada manhã, ele queria amanhecer sem marcas na sua pele tão gasta, ele queria que suas mãos fossem tão mais lisas, e que o toque áspero não lhe pertencesse, ele queria ter os olhos brilhantes, de oceano, que ele já portara, ele queria receber novamente a capacidade de estado sinistro, gauche, ele queria ter podido ser tão feliz. O passado era como um jantar atravessado, mal digerido, não mastigado, como aqueles remédios encapsulados que somos obrigados a tomar e que nos trancam a garganta. Suas pontadas eram cada vez mais agudas, pontuais e concentradas. O entendimento havia trazido mais certezas e mais confusão. O céu nublado, a canção triste, incompreendida, sua alma cheia de inflamações, tantos cenários, quantos personagens e na soma de balanço, que tremenda solidão. O macio dos lençois rasgados ia embora com a incapacidade de exercer seu papel, o tempo chamava o tecido de volta, a se tornar resto, a se decompor em paz. Os gritos mudos de dentro dele ainda não tinham cessado. Ele estava cheio de um vazio povoado, de uma confusão pretendida a ordem, de barulhos inaudíveis, de canções tocando sem autoria e letra. Os tantos não fins de todas as histórias não suas eram muito para tão pouco espaço, as grades não eram tão maleáveis, sua capacidade não era tão dúctil, sua força era muito mais volátil do que sua esperança, seu medo vencia sua coragem, e a cegueira pela dor forçava a luz a não voltar mais, a reluzir dourada, e intensa, e por fim, se extinguir.

9 de janeiro de 2009


Sinto como se cada novo dia fosse uma nova chance não possível, como quando se convida alguém e sabe que esse alguém não comparecerá. As dúvidas que povoam cada pensamento são questionamentos de todas as ordens, múltiplas, reincidentes, de sortes pacíficas nos outros, no mundo. A busca pela satisfação dos sentimentos é uma batalha encerrada em si mesma porque não se há certeza do que satisfazer, em consequência de não se saber o que se quer realmente satisfazer. A insatisfação que motiva a raiva quotidiana que se morfa em tristeza reside no fato inquestionável e indubitável de uma realidade cruel e finita, limitada e pequena. Os limites sempre foram meu algoz mais impenetrável, invencível, intangível. O que espero se traduz pela não expressão, pelo que não digo, talvez pelo que nem sinto, porém pelo que espero. Não consigo mais escrever como eu gostaria, não consigo mais depositar nas palavras minhas dores, não, minha dor, porque apesar de latente e pontual, o sofrimento atinge o todo no âmago. Minha vida é a sucessão de novas esperanças falidas, de ilusões retroalimentadas e de sonhos que habitam do outro lado do limite. Sim, vivo na busca incessante por cruzar o limiar, por transgredir o imposto, por desafiar a sina do destino que me condicionou. Cada novo dia traz sempre as mesmas sensações. Às vezes mais intensas, às vezes mais tênues. Borradas ou não, sou como uma mancha que desbota e se renova sempre mais vívida, nova e intransigente. Como um botão de rosa que nasce, desabrocha e antes do ápice da plenitude da vida, regride, retrai, se encapsulando novamente, definhando folhas e caule, em semente.

20 de novembro de 2008


Cada movimento é pesado como ferro.
Cada palavra é áspera como lixa.
Cada pensamento é pontiagudo como espinho.
Cada dia é dor que urge, não sara, tremor que não se retém, origem latente, que escorre, desce em lágrima, a prestação, coração estilhaçado em revolta implodida, amor negado, rejeitado de forma explícita, letra por letra ignorada, não respondida, jogada fora, como lixo, montes dele, era ele.
Desencontro quotidiano.
Dos fins de todos os não (ou quase) começos.
Socorro que não chega. Ajuda que não ampara.
Caminho que não aparece. Mágica da vida que esgota, cansa, arrefece, aquieta, cega, inebria, sonambuliza, afoga, abafa, cala, dorme o sono da fome de vida.

17 de novembro de 2008


UM SONHO NUM SONHO

Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fugidia?
De maneira qualquer fugiria.
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho.

Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou e suponho
será apenas um sonho num sonho?

(Edgar Allan Poe)

16 de novembro de 2008


"A essas pessoas é fácil amar. Elas estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade...”

Rubem Alves

15 de novembro de 2008

22 de outubro de 2008


http://br.youtube.com/watch?v=P0AZIFmkogY

Deixar escorrer.
E queria que não vertesse vermelho, vivo, em pulsões.
Eu queria que o sangue fosse dourado, brilhante, pura luz.
Imagine se os corpos brilhassem na escuridão, se nas noites geladas cada um fosse lâmpada, talvez não haveria trevas absolutas em ninguém.
As coisas tem que ir embora, tem que partir, tem que nos deixar.
Os ciclos que se encerram em nós exigem esse desprendimento, senão cada tempestade traz de volta sempre os mesmos objetos, pedaços de nós mesmos, de nossas histórias mal resolvidas, de nossas confusões.
Os sentimentos são trovões, os desejos raios, os sonhos chuva, a espera nuvem, e o sol é aquilo do amanhã.
Eu queria ser estrela, estar no firmamento, e queria guardar cada pessoa que amei, junto comigo, lá no alto, como constelação, pois é assim que elas estão dentro de mim.
Sou menino-céu, coração-turba, movimento-música, luz pequenina que insiste em brilhar no infinito escuro.
Chama da idealização, vermelho alto, desejo do dourado, chão.

Sinto