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26 de março de 2012


Quando era pequeno beijei uma menina escondido no pátio de meus vizinhos, e fui flagrado. Meus cabelos são incontinentes em sua rebeldia. Não há corte, penteado ou jeito que os amanse, parecem com as nuvens dos céus que eu sempre procurei perscrutar: indomáveis, insanas, incessantes, incontroláveis. Quem sabe tudo não tenha começado naquela advertência no jardim. E hoje se desenrola nesse homem que não se encaixa. Que entende que não é simétrico o suficiente, que não possui os dotes que deveria, e que, aprisionado em suas formas carnais, não encontra amparo nas aprovações que tenta construir para si. Aquela menina do beijo hoje parece à minha frente, realizada por escolhas e conjeturas, está emoldurada em caminho semelhante ao meu mas diametralmente oposto. Àquela época, com candura, fui presenteado por ela com um microfone, rosa. Acho que eu fazia 5 ou 7. E essa é a primeira vez que uso números por aqui. Tamanha é minha congestão mental deles. Estou tomado por algorítimos que me cobram, exigem, que me prensão em uma parede que não é táctil. É da ordem daqueles elementos que determinaram que meus fios de cabelo seriam ariscos, meu rosto redondamente incômodo, e minha pele erupta. Minha vida é uma guerra sem intervalos, uma batalha sem descanso, uma espécie de corrida onde cada passo dado significa. É como se eu vivesse dentro de um eterno tornado em colapso. Sedento por levar ao chão os retratos, os desejos e as histórias lindas pregadas nas paredes que algum dia autorizaram que eu deixasse de viver por mim. 

16 de janeiro de 2010




Eu tinha seis anos e estava na porta da escola e a aula já tinha terminado, todos os meus colegas tinham ido embora e já não havia mais quase ninguém perto de mim e eu achei que tinham me esquecido e fui tomado por um medo que acho estranho, logo eu que lido tão mal com a memória, que eu me recordo até hoje e eu lembro que eu corri e pedi ajuda pra um senhor de chapéu e disse que ninguém tinha vindo me  buscar e pedi se por favor ele não sabia onde eu morava porque talvez ele soubesse e me conhecesse e pudesse me deixar em casa. Hoje eu não tenho mais seis anos e volta e meio sinto uma sensação muito parecida, só que não é mais aquele leve atraso de um pai indo buscar um filho na porta da escola.  É meio como que esperar alguém vir te buscar porque você não sabe pra onde seguir porque não há caminho, e você também não tem mais pra onde voltar direito porque você precisa construir algum lugar que seja teu. E eu acho que também é como uma espera inacabada e intermitente pela chegada de alguém que vem te levar pra algum lugar seguro e confortável e onde você se sinta bem e protegido porque parece que apesar de você ter crescido o mundo aqui fora não ficou melhor e você ainda se sente com medo, e é difícil não ter mais a certeza de que o teu pai vai estar no portão a hora que você sair. E acontece que não tem mais também nenhum homem alto de chapéu de palha pra te levar pra casa. E apesar de saber que não existe, acho que eu sou daqueles que acredita que existe um lugar melhor onde alguém vai te levar um dia e você vai se sentir protegido. E a sensação é que essa fantasia é uma mentira inventada pra mascarar a verdade de que nunca ninguém virá te buscar e te levar porque aquele dia na escola fui eu quem precisei pedir ajuda e me deixaram em casa porque sabiam onde eu morava e na verdade até tinham ido me buscar mas tinham chegado muito atrasados e fui eu quem não conseguiu mais esperar pelo medo de ficar sozinho e perdido num lugar longe de casa e sem saber por onde voltar. Hoje eu diria que é como se as únicas diferenças fossem as de que eu não tenho mais aquela idade e que meu pai não está mais a caminho porque pra onde eu quero ir ele não sabe como chegar nem pode me levar. Pra chegar lá tenho que ir sozinho.

14 de novembro de 2009



Meu mar vermelho foi você quem abriu. Na verdade nem eu sabia que você estava fazendo aquilo mas você estava, e quando eu olhei em frente tinha um oceano inteiro aberto ao meio a minha espera. Eu não sei bem quais foram as tuas palavras, os teus gestos, tenho dificuldade até pra lembrar da tua face e o que mais me inpressiona é a força da tua magia, o poder do teu ser, que repartiu aquele mar inteiro que eu acabei por atravessar. Teve um momento, e isso eu nunca tive a oportunidade de te dizer, porque no meio daquela travessia imensa você acabou me deixando sozinho sem querer, e quando eu olhava pros lados, intensamente com vontade de te perguntar alguma coisa eu só via água e mais aqueles poucos que caminhavam comigo pelo chão submarino agora descoberto. Eu queria te dizer que hoje eu acho que eu terminei de atravessar o mar vermelho, eu percebi que eu passei por todo aquele corredor, e agora que eu não estou mais cercado pela água interminável posso te afirmar que me intriga ainda o teu poder, infinito, de segurar o oceano. Queria te agradecer por teres feito com que eu tivesse um caminho que atravessar, com ou sem ti eu trilhei por ele, e agora que eu me vejo do outro lado do mar me dá medo. Eu estou alegre por ter sobrevivido mas me dá uma angústia de pensar em errar, ando meio sem coragem de subir as montanhas e correr pelas planíces que eu tanto sonhei, eu tenho medo de receber sim e não pelo meu novo caminho, e reticente, ando optanto por não caminhar, não seguir em frente, não me despir daquela indumentária pesada que eu carreguei por todo o paredão escuro e interminável e úmido que eu consegui findar. Eu só queria não precisar de garantias. Queria deixar de temer o erro. Me despir daqueles calçados apertados que me seguravam firme e ao mesmo tempo me tornavam lento. Se eu posso fazer um pedido, e eis que isso já é um deles, queria saber se tu pode ir me dizendo aos poucos daonde tu tirou aquela força toda pra segurar o mar, eu ando precisando lidar com aquelas ondas e não consigo entender o que fazer com elas. Se tem como eu fazer isso eu queria aprender. E queria também abrir o mar pra alguém, desejando que ele não fosse tão vermelho como o meu, nem tão solitário, mas queria muito fazer nascer em alguém aquilo que a tua força e a tua magia fizeram em mim.Eu ando acreditando tanto no poder do amor, que me dá uma saudade de sentir, e eu acho que com toda essa ternura eu estou pronto pra abrir um oceano inteiro pra alguém passar também, só preciso vencer aquelas ondas que me matam aos poucos e que quase te mataram também. Mas você conseguiu extinguir elas e se você pôde eu também posso. Se tem algum segredo ou alguma palavra mágica ou alguma dança ou algum passo eu queria te dizer que eu sou artista e que você não precisa se intimidar em tentar me ensinar porque eu acho que posso aprender bem.

12 de setembro de 2009


Hoje tinha uma bola amarela no lago e eu me lembrei de você. Semana passada eu te escrevi e você não me respondeu. Há meses atrás eu chorei no pátio de uma formatura e me neguei a entrar no teu carro quando você me chamou porque eu não queria que você me visse daquele jeito. E eu venho não querendo que você me veja desde sempre, estou cansado de mim mesmo por não desistir de escrever pra você. Estou cansado de viver um sentimento que nem vive nem morre, você exerce uma espécie de existência perene dentro de mim. E eu acho que não deve ser assim. Tem um filme chamado Summer Storm e eu acho que você deveria assiti-lo. É mais ou menos assim. E não importa por onde eu ande, com quem eu esteja e você sabe que sempre um dia eu consigo estar com quem eu quero, ninguém preenche você. Ninguém te substitui. Ninguém ocupa. E isso é repetitivo porque nem eu mais aguento esse sentimento que atravessa os anos dentro de mim independente dos outros e do que eu sinta por eles. É lógico que às vezes ele diminui, mas ele sempre volta. Como um pêndulo de um relógio que canta`os velhos tempos sempre acabam voltando`. Dentro em breve faz um ano do dia em que escolhi pra tentar ouvir de você. E eu te juro que quanto mais a gente se esconde mais a gente se perde. Hoje eu acho que está na hora de um pôr-do-sol em você. Minhas màos procuram as teclas, e minha memória lembra das tuas mãos, que eu sempre achei lindas. Meu cárcere é a angústia de nunca poder ter sabido como teria sido se você tivesse me deixado mostrar o quanto eu sempre gostei de ti.

5 de setembro de 2009

Volta. Eu queria que fosse possível. Eu queria que você também me quisesse. Eu queria passar horas infinitas com você, queria fazer você sorrir sempre, queria te acompanhar, queria te surpreender, queria viajar contigo, queria jantar contigo, ver todos os filmes que eu não gostaria de ter que ver sozinho, gostaria que você cuidasse de mim, gostaria de poder fazer por você tudo aquilo que eu posso, eu queria o teu sorriso, o teu jeito, eu queria todo o teu brilho e eu queria te entregar meu sorriso, meu carinho, meu companheirismo e minha ambição, eu queria que você entendesse o que nem eu mesmo entendo e eu queria ficar do teu lado porque você faz uma falta na minha vida que eu não sei viver sem e eu sempre acordo sabendo que tá faltando alguém e tendo que me acostumar com a tua ausência e tenho mil fasese mil frases e mil faces e mil sentidos alterados quando penso em você. Eu preciso escolher fazer você partir pra sempre e eu já escolhi isso tantas vezes mas não funciona muito bem. Eu acho que não funcionou nunca de verdade porque eu sempre quero você comigo de um jeito ou de outro. Eu preciso matar minha esperança de te ter, eu preciso aniquilar aquela chama tímida de felicidade que nasce sempre que eu penso em ti e na gente e naqueles momentos que eu me sinto feliz e você também, e que a gente sabia passar juntos. Mais do que qualquer coisa eu queria que você soubesse que eu te amo. E eu te amo porque 'eu gosto de você' é tão fraco pro que eu sinto, por favor, me ajuda a te matar em mim. Eu quero parar de doer por gostar de ti mas eu não tenho conseguido. Se nem mesmo a distância, a ausência e a separação fizeram isso por mim fui levado a pensar que talvez só você pode fazê-lo. Não quero sentir isso pra sempre por você se eu não posso ser feliz contigo. E é com aquele arrepio de emoção que corre meu corpo agora que eu queria que você soubesse que eu sou aquilo que eu sempre te disse e te entreguei.

9 de novembro de 2008


Quero trazer cada lembrança à tona. Quero lembrar cada dor, cada medo, cada inveja, cada ódio, cada rancor, cada briga, cada desejo de vingança. Quero recordar cada dia triste, cada vontade de morrer, quero reassistir cada derrota, cada falha, cada queda que me fraturou, quero rememorar cada pavor, cada pânico, cada susto, cada palavra que me cortou e fez escorrer. Quero ver aqueles dias de espera, de dúvida e aqueles anos de angústia de novo. Eu quero mexer em cada fato mal acabado, em cada memória mal assentada, em cada palavra escrita mas não entregue, em cada palavra barrada e não dita, em cada censura-tortura, em cada desejo-pena, em cada sonho-mola, em cada dia de humilhação gratuita e não respondida. Eu quero, lembrar, recordar, reassitir, rememorar, eu quero ver tudo novamente, eu quero lembrar de cada dia, eu quero reviver todos os anos, os meses, ser inteiro como aquele garoto da terceira-série, onde no cavalu um mais nove mais nove mais oito eram vinte e sete, quando pão-de-queijo era pão-de-ló e chá era refrigerante, onde casebre era mansão, onde espera era existência, fé-esperança, bombom um luxo, requinte puro e sofisticação.

1998

8 de outubro de 2008


Ser feliz é deixar viver a criança livre, alegre e simples que mora dentro de você.











Daniela

30 de setembro de 2008





Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera

E assim foi o começo.
Como disse a assistência técnica baunilhiana:
-sem o amargo, o doce não é tão doce.



7 de maio de 2008 00:04

23 de setembro de 2008

Nada como inquilinos animalescos, palhaços na lembrança e uma dose de criatividade que finge arte e não passa de mistura de tudo aquilo que acontece dentro dele, com aquela pitada de nostalgia nem sempre boa -quase sempre, em verdade.

O Lar e o desgoverno dos inquilinos