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7 de maio de 2011


É como uma árvore em óbito. Seca pela sede eterna de viver. Suas raízes já não encontram mais água no profundo, e a terra árida do subsolo paraliza a seiva, que deixando de correr, mata as folhas. E é como se eu fosse as folhas verdes morrendo agora. Me sinto interrompido por esta sede de você, ou daquilo que você me entregava, ou do que eu entregava pra você. Minha necrose da alma é uma espécie de luto incerto-interno, desmedido e despropositado ao qual resisto selvagem. Não consigo me desfazer de você. É como se houvesse um vínculo energético, substancial, (i)material intrínseco. Cada dia escurece mais cedo e eu não lido bem com a treva. Confesso que o escuro nunca me foi seguro exceto contigo, e essa é umas das coisas maiores, talvez, das quais preciso aprender em breve, e com bravura, sem você. Eu preciso de um caminho em meio às trevas pelo qual seguir sozinho, e por favor, me ajuda, já não aguento mais estar perdido por saber que não adianta mais te (des)amar.

25 de abril de 2009


Existe alguma coisa no céu que me encanta. Sinto que o azul do firmamento e as estrelas, e as nuvens, todas, das cores mais diversas, tudo que é celeste prende meu olhar e me tira o fôlego numa sequência que não encontra mais fim. É como quando se está na praia à espera do fim das ondas, numa ciranda que obedece a sina de esperar a vaga melhor por partir, porque você já não sabia mais pra onde ir e agora mesmo é que você tem certeza disso. Existe alguma coisa suspensa no ar e eu acho que ela exala alguma coisa que me lembra liberdade, ou a vontade de ser. Existe uma nota que soa intermitente dentro de mim e que ecoa pelo vento como quem leva a semente que vai desabrochar e nascer árvore um dia, e que está à procura da melhor terra, pra melhor semeadura, e isso depende da força do vento e da sorte da semente. Eu sinto que existe uma casca quebrando, aos poucos, existe alguma coisa a ser dissociada e é aquilo que eu mesmo quero que seja feito em mim. Eu preciso do desprendimento definitivo daquilo que me traz a tristeza e o medo, de todas as sortes, daquela solidão-âncora em terra firme e de todas as decepções possíveis que eu tenho medo de viver. Porque esse é aquele em que eu somo em adição ao que eu escrevi e apaguei outro dia, e porque eu quero te entregar aquilo que eu tenho de melhor, na condição mais especial, no momento ideal, na sintonia mais perfeita que minha imperfeição pode gerar sendo quem sou. E eu queria que eu mesmo soubesse o que é que tem acontecido comigo, porque aquela estranheza parece ser teimosia, e isso é tão bom que hoje eu sinto como se há muito eu tivesse perdido alguma coisa e parece que eu encontrei. E ela tá insistindo em ficar, e o céu continua me atraindo, com aquela força que me hipnotiza e me satisfaz, parcialmente, porque eu ainda não me sinto desacorrentado completamente das correntes todas que me ligam ao tempo, porém eu acredito que a chave de cada cadeado vai chegar a tempo, e se eu conseguir sair daqui pra não chegar tão atrasado naquele dia, eu tenho certeza que o céu vai me fazer sentir, pela primeira vez, que eu consegui ser o garoto que eu me tornei.

15 de janeiro de 2009


A música soava leve e sincera, e ricocheteava em sua alma, tocava em cada medo, em cada temor, em cada sonho, cada espera, cada necessidade postergada, silenciada e amordaçada. Ele caminhava meio sem saber o que esperar, o que pretender, o que querer, na verdade, quanto mais se conhecia e sabia, menos entendia, uma razão estranha, uma ordem que não era dele, determinações, rótulos, marcas de uma vida tão descolorida, tão traçada a caneta, sem direito a borracha, lápis, correção branda, com coloridos de lápis de cor emprestados, ausentes, diminutos, rarefeitos. Amar era como o estranhamento de um encontro, como uma espera boa e gelada. Ele era um garoto que amava, em silêncio, em volume alto, ele amava em tantos tons, em tantos matizes, ele amava em canção, ele amava em palavras, ele amava em olhares, e ele amava cada dia quando acordava, e era cego, e inebriado, e tonto, e ele era tudo o que era pelo amor. Ele amava demais, e talvez amasse errado, ele era entupido de amor, amor que não fluia, não trocava, amor que não tocava, não sentia, amor que não se permitia, que se acorrentava, se escondia, amor que confundia, que atordoava, quem sabe tudo sempre fora questão de amor e dor e sentir?
Havia umas lágrimas escondidas em cada nuvem de cada pôr-do-sol dos últimos dias, havia um sentimento de tristeza por trás de cada música, cada filme, cada beijo assistido, em cada eu te amo visto, havia medo, tristeza, culpa e dor por de trás de cada palavra dita e sorriso entregue, havia tanto a ser discutido por ele. Havia amor, e tristeza, e a espera, e isso era tudo. Ele se montava todo dia, se desmontava em cada crepúsculo e ele pensava quantos dias mais, quantas semanas, quantos meses ainda resistiria a essa auto-linha de montagem, a esse medo de viver, a essa resistência de dor, a essa mágua do mundo, a esse céu escuro de nuvens carregadas que não deixavam espaço pra entrega, como a de cada raio de sol, em cada novo alvorecer.

18 de novembro de 2008


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo

Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa curiosidade pelo momento a vir

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinícius de Moraes 15/04/1962

7 de novembro de 2008


ascenção apogeu e queda da vida paixão
e morte
do poeta enquanto ser que chora enquanto
chove lá fora e alguém canta
a última esperança da luz e pegar o primeiro trem
para muito além das serras que azulam no
horizonte
e o separam da aurora da sua vida

Leminsk


Obra


22 de outubro de 2008


http://br.youtube.com/watch?v=P0AZIFmkogY

Deixar escorrer.
E queria que não vertesse vermelho, vivo, em pulsões.
Eu queria que o sangue fosse dourado, brilhante, pura luz.
Imagine se os corpos brilhassem na escuridão, se nas noites geladas cada um fosse lâmpada, talvez não haveria trevas absolutas em ninguém.
As coisas tem que ir embora, tem que partir, tem que nos deixar.
Os ciclos que se encerram em nós exigem esse desprendimento, senão cada tempestade traz de volta sempre os mesmos objetos, pedaços de nós mesmos, de nossas histórias mal resolvidas, de nossas confusões.
Os sentimentos são trovões, os desejos raios, os sonhos chuva, a espera nuvem, e o sol é aquilo do amanhã.
Eu queria ser estrela, estar no firmamento, e queria guardar cada pessoa que amei, junto comigo, lá no alto, como constelação, pois é assim que elas estão dentro de mim.
Sou menino-céu, coração-turba, movimento-música, luz pequenina que insiste em brilhar no infinito escuro.
Chama da idealização, vermelho alto, desejo do dourado, chão.

Sinto

"Cada pedaço de mim sabe o inferno que é ser sol em noites de chuva, ser cor nos cinzas dos edifícios, ser luz na escuridão das manhãs. Cada todo de ti sabe a delícia que é ser flor nas asas do vento, ser cristal nos olhos das fadas, ser azul no fundo do mar. Cada suspiro de nós sabe a angústia que é ser só um na multidão dos dias, ser muito na pobreza da esquina, ser ninguém na roda da vida. Enquanto isso os relógios se vão, e vêem aqueles que sabem o que é apenas ser na ausência do nada".

"O medo sempre me guiou para o que eu quero. E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que eu amo é arriscado."

"Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu.
Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil.
Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu."

"Eu sinto uma beleza quase insuportável e indescritível.
Como um ar estrelado, como a forma informe, como o não-ser existindo, como a respiração esplêndida de um animal. Enquanto eu viver terei de vez em quando a quase não-sensação do que não se pode nomear.
Entre oculto e quase revelado. É também um desespero faiscante e a dor se confunde com a beleza e se mistura a uma alegria apocalíptica."

"Todo momento de achar é um perder-se a si próprio."

"Talvez o que me tenha acontecido seja uma compreensão - e que, para eu ser verdadeira, tenho que continuar a não estar à altura dela, tenho que continuar a não entendê-la. Toda compreensão súbita se parece muito com uma aguda incompreensão."

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."

Clarice Lispector

Gangorra

10 de outubro de 2008


"eu é que te agradeço por me devolver o que eu achava que tinha tido e nunca tive"



Antes de qualquer coisa, música


e, para isso, prefere o Ímpar

mais vago e mais solúvel no ar,

sem nada que pese ou que pouse.

E preciso também que não vás nunca

escolher tuas palavras em ambigüidade:

nada mais caro que a canção cinzenta

onde o Indeciso se junta ao Preciso.

São belos olhos atrás dos véus,

é o grande dia trêmulo de meio-dia,

é, através do céu morno de outono,

o azul desordenado das claras estrelas!


Porque nós ainda queremos o Matiz,

nada de Cor, nada a não ser o matiz!

Oh! O matiz único que liga

o sonho ao sonho e a flauta à trompa.

Foge para longe da Piada assassina,

do Espírito cruel e do Riso impuro

que fazem chorar os olhos do Azul

e todo esse alho de baixa cozinha!

Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!

Tu farás bem, já que começaste,

em tornar a rima um pouco razoável.

Se não a vigiarmos, até onde ela irá?

Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?

Que criança surda ou que negro louco

nos forjou esta jóia barata

que soa oca e falsa sob a lima?

Ainda e sempre, música!


Que teu verso seja um bom acontecimento

esparso no vento crispado da manhã

que vai florindo a hortelã e o timo...

E tudo o mais é só literatura.


Verlaine


Agora

7 de outubro de 2008


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo

Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa curiosidade pelo momento a vir

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinícius de Moraes 15/04/1962


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