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10 de julho de 2011

Tem um anjo branco na pintura do francês do século XIX. E tem um mortal envolto em um movimento congelado no tempo com o anjo no mesmo quadro do mesmo europeu. E ambos tem traços que muito se assemelham a. Eu acho que tem uma espécia de batalha como a deles dentro de mim agora. Algo que faz com que eu apague as linhas com rapidez e escreva tudo uma vez mais. Meio como que resgatando um velho hábito de derramar as linhas por sobre a tela branca à minha espera. Eu queria poder estar resolvido. Gostaria muito de me encontrar sedimentado, pronto, em movimento sequencial de início, num modo de operação que não exigisse de ti espera, aguardo, paciência ou compreensão. Mas não consigo. A grande verdade é que eu estou inacabado, em transição, incompleto, e qualquer tentativa de ponte seria difícil a despeito de não ser impossível. Seria como um movimento duplo de aguardo e espera ao qual sempre estive disposto, mas de cuja responsabilidade não posso arcar sozinho, visto que todo tipo de entrega pressupõe uma tentativa, tácita, de respeito ao outro, e preciso consignar que não posso exigir de ti nenhum tipo de espera ou atitude complacente. Há direitos e direitos, e em um relacionamento maduro, nunca podemos nos ultrapassar, tampouco o outro. Eu só queria que você soubesse que eu acho que cada um tem um tempo um momento e uma perspectiva e que não existe prazo de validade algum. Que todo tipo de afeto é processual,  e que todo tipo de desejo é válido, porque só quando a gente sente com o coração a gente se move, e se algum dia eu desenhei algum passo e saí da inércia gelada da indiferença, de qualquer sorte, esse passo foi por ti. É um grande e delicioso prazer ter você guardado em minhas memórias e no meu coração. Porque você me fez descobrir que os anjos caem; e que apesar de todas as tentativas celestiais de castração, eles tem, sim, sexo.

4 de janeiro de 2010




Resumindo são mais do que algumas simples considerações.  É mais ou menos como um fim de tarde desses de céu rosado, e com uma estrela brilhante e única que eu pude assistir esses dias lá longe naquelelugar fechado e fundo e vazio. E até lá tem desses fins de dia pra se ver. Eu acho que eu fiquei tempo demais me escondendo nas tuas sobras, me alimentando daqueles poucos pedaços de tudo que você deixava cair, de algumas migalhas que escorregavam do teu prato cheio de comida. Eu cansei de ser espectro, fantasma, assistente, coadjuvante. E vem sempre aquela sensação de frio da realidade,  de medo do choque, todas aquelas borboletas vivas e coloridas que forram meu estômago de vez enquando. Acho que eu estou escrevendo isso hoje porque ando meio tomado pelo silêncio e pelo cansaço, pela calma, do esgotamento e uma espécie não-ruim de penúmbra, me sinto livre e preso numa atmosfera meio escura meio clara que nunca me foi simpática. E em verdade acho que você ainda é uma das únicas, poucas e últimas coisas que ainda consegue despertar meus demônios, fazer falar os dragões, desnudar minhas fraquezas mais gritantes,  quase só você consegue me dar aquele ímpeto efêmero de me fazer traduzir pelas letras que eu costumo depositar aqui, nesse esboço patético do eterno adolescente que eu ainda custo a acreditar às vezes que eu me tornei.


11 de dezembro de 2009


FODA-SE VOCÊ. FODAM-SE AS BOCAS MACIAS. ODEIO SOFRER POR VOCÊ. VAI EMBORA. EU NÂO AGUENTO MAIS TE AMAR E TE QUERER S. F. D. P.

3 de dezembro de 2009




Uma gota de suor lhe escorria o corpo e juntava-se às outras que já molhavam o chão, em alguns minutos eram dezenas, e ininterruptas um lago formavam aos seus pés. Um esgotamento lhe percorria a mente e lhe cegava de forma definitiva, nada mais conseguia ser elaborado por aquela mente convulsa e inoperante. Um semblante cansado lhe estampava o rosto e pouco a pouco seus olhos cediam a força da desistência e não havia mais esboço algum que conseguisse transmitir pela face. O medo lhe gelava a alma, e estático o tempo parecia não resolver nenhum de seus velhos problemas, que na verdade eram novos, renovados, perplexo pelo reflexo do que vinha ao seu encontro não conseguia compreender o que eram aquelas formas e aqueles vultos. Em verdade o passar dos anos não havia solucionado nada, nenhum dos problemas havia sido solubilizado, apenas a vida havia por postergar-lhes o confronto, houve apenas um movimento no sentido de tardar o encontro com a verdade, que não se transveste, não perdoa, é imutável, perene, absoluta. Naquele dia o relógio havia quebrado, e os ponteiros pareciam girar do avesso e ao contrário numa ciranda macabra,  parecia então, que a realidade procrastinada vinha toda à baila pare se fazer valer e seus pensamentos eram tomados pela verdade que escorria de seus olhos fechados e que já não conseguiam mais segurar a força daquela destruição, a desconstrução, a demolição, ele era aniquilado, desmantelado, obliterado, pulverizado. Irrompia do céu azul da primavera uma sombra gelada de um futuro temeroso que o havia por envolver. Em meio à névoa dezenas de espectros negros sem rosto exibiam suas lâminas mortais empunhadas aos milhares, perplexo e molhado pela água fria do prenúncio do fim que agora o havia embebido, e já não se sabia se eram suor ou lágrimas, o garoto fechava ainda mais os olhos na tentativa de não ver, de tentar acordar do pesadelo da realidade e voltar pro mundo do sonho e da fantasia, ele se negava a aceitar o recomeço e o fim, a queda e a humilhação, pesadelo do passado repetido, por ser revivido, resofrido, reencarado. A dor profunda e visceral e o sofrimento que sempre lhe assombraram em suas piores visões e expectatívas pareciam inevitáveis e irrepelíveis e se tornavam reais. Sua sina trágica e dolorosa era mesmo a que lhe fora marcada no dia de seu nascimento e da qual ele, por mais esperança que tivesse e forças reunisse não tinha conseguido vencer. Entregava-se ao azar da existência. A maldição de um passado triste e duro e áspero e de escombros, da miséria da falta e da carência do quotidiano chegava novamente ao presente como uma dádiva dos infernos e o calor de um verão prenunciado era o início de um fim cruel, impiedoso e negro que materializava-se a cada novo segundo da pavorosa e assombrosa maldição da vida a que tinha sido condenado por deus.

18 de outubro de 2009



Kriptonita não é aquilo que você acha que é, eu já te disse o que é, e você com certeza não lembra, nem nunca lembrará. Tinha uma bola amarela no lago naquele dia e a previsão metereológica era de que ia chover muito. Esqueceram de dizer que ia ser raios. Choveu raios aquele dia. E em todos os dias depois daquele dia em que você me deu liberdade pra. Esse texto você nunca vai ler porque você não lê o que eu escrevo, você não me lê na verdade. Eu acho que eu fiz a maior das idiotices quando fiz tudo o que fiz pra você. Idiotice porque idiota na raiz semântica quer dizer 'aquele que não reconhece a si mesmo' e eu não me reconhecia mesmo. Eu adoro muitas coisas que tu consegue conquistar mas detesto a forma como você as aproveita. Tem  algumas coisas que eu gostaria de experimentar antes de me despedir de você mas como eu sou repetente em despedidas acho que não vou conseguir ir embora daquele jeito que eu gostaria. Tem uma parte tua que me causa frio nas mãos e que me congela em profundidade visceral. Acho que é aquele domínio que eu invejo do controle de si, uma espécie de dissimulação quase-perfeita se não fosse o fato de que eu te conheço. E se eu te leio dos pés à cabeça, do avesso ao contrário fica complicado atuar. Tem um poema que diz que 'cedo ou tarde' a você sempre cedo. E eu tenho algumas coisas que eu já te disse que eu queria dizer de novo e de novo e de novo mais umas dezenas de vezes porque acho que você as deveria escutar até criar calos nos ouvidos. E existe uma coisa que você não conhece que se chama essência. E eu gostaria de ser informado quando você encontrar. Eu também queria deixar resgistrado nesse cofre que todas as palavras que eu te enderecei você não teve conhecimento e que quando eu disse que precisava matar uma estrela essa estrela era você. E eu queria que um dia você encontrasse a senha desse refúgio porque a gente sempre escreve pra alguém ler. E eu escrevi várias vezes sem senha pra você. Não vou mais criptografar mensagens em palavras, nem transvestir atitudes em entrelinhas, nem construir fatos desenhados pra tentar te dizer. Não preciso mais tentar me transgredir porque não sou mais a tentativa acoplada de me fotocopiar ajustada de você. E assim, acho que já passou da hora de você rever o teu conceito de maciez porque de cada dez bocas que você beijou me cansava ouvir você dizer que onze eram macias. Duvido. Da maciez e da quantidade de bocas.

25 de maio de 2009


É como a paisagem que se altera todos os dias e no fundo acaba por ser sempre a mesma. Existe sempre alguma coisa ausente. A ausência também pode estar suspensa, pairando sob nossos corações. Naquele dia todas as nuvens se dispersaram e partiram, e o céu vibrante de outrora deixou de estar nebuloso e o sol partiu junto com tudo que havia e o que restou era a noite que chegava mais uma vez silenciosa e silenciante. Todas as memórias se remexiam do espaço onde estavam, num rearranjo que parecia o balanço de alguma coisa que está pronta pra fechar as portas. Talvez seja como trancar um quarto, encerrando as aberturas e ativando todas as ignições que selam a entrada e as janelas. Tudo talvez se resume a medo e incerteza. Porque esse é aquele em que o sol desceu o céu e encerrou alguma coisa que eu não sei bem o que. No fundo eu continuo sendo o garoto que não sabe das coisas. Alguém perdido na busca por um ser que não é, que sob o edifício da auto-observação, numa instância metafórica, passou a buscar incessantemente a análise de seu eu que deixou de estar onde deveria, e por isso não há garoto para se tornar, porque estou atrasado, no meio daquele deserto de mim, da onde talvez nunca tenha saído. E eu queria que você soubesse que você foi um sonho no meio do pesadelo da minha vida. E que eu te agradeço por teres me feito feliz, como nunca.

25 de abril de 2009


Existe alguma coisa no céu que me encanta. Sinto que o azul do firmamento e as estrelas, e as nuvens, todas, das cores mais diversas, tudo que é celeste prende meu olhar e me tira o fôlego numa sequência que não encontra mais fim. É como quando se está na praia à espera do fim das ondas, numa ciranda que obedece a sina de esperar a vaga melhor por partir, porque você já não sabia mais pra onde ir e agora mesmo é que você tem certeza disso. Existe alguma coisa suspensa no ar e eu acho que ela exala alguma coisa que me lembra liberdade, ou a vontade de ser. Existe uma nota que soa intermitente dentro de mim e que ecoa pelo vento como quem leva a semente que vai desabrochar e nascer árvore um dia, e que está à procura da melhor terra, pra melhor semeadura, e isso depende da força do vento e da sorte da semente. Eu sinto que existe uma casca quebrando, aos poucos, existe alguma coisa a ser dissociada e é aquilo que eu mesmo quero que seja feito em mim. Eu preciso do desprendimento definitivo daquilo que me traz a tristeza e o medo, de todas as sortes, daquela solidão-âncora em terra firme e de todas as decepções possíveis que eu tenho medo de viver. Porque esse é aquele em que eu somo em adição ao que eu escrevi e apaguei outro dia, e porque eu quero te entregar aquilo que eu tenho de melhor, na condição mais especial, no momento ideal, na sintonia mais perfeita que minha imperfeição pode gerar sendo quem sou. E eu queria que eu mesmo soubesse o que é que tem acontecido comigo, porque aquela estranheza parece ser teimosia, e isso é tão bom que hoje eu sinto como se há muito eu tivesse perdido alguma coisa e parece que eu encontrei. E ela tá insistindo em ficar, e o céu continua me atraindo, com aquela força que me hipnotiza e me satisfaz, parcialmente, porque eu ainda não me sinto desacorrentado completamente das correntes todas que me ligam ao tempo, porém eu acredito que a chave de cada cadeado vai chegar a tempo, e se eu conseguir sair daqui pra não chegar tão atrasado naquele dia, eu tenho certeza que o céu vai me fazer sentir, pela primeira vez, que eu consegui ser o garoto que eu me tornei.

5 de abril de 2009


Esse é aquele em que a noite é a verdade. Era uma vez um lugar, e nesse lugar existiam pessoas. Aquele não era um lugar qualquer, cada indivíduo tinha um recorte do espaço e podia utiliza-lo como bem entendia, de praxe, cada pessoa construia uma edificação no recorte que lhe era concedido. Dentre aquele mosaico pequeno e limitade existiam algumas pessoas especiais. Dois vizinhos se conheciam desde que se entendiam por gente, no entanto, nunca haviam trocado mais que meros instrumentos, um dia, com o passar do tempo, eles ficaram adultos o suficientes para proceder com a costrução, que começava para cada um, em ritmo mais lento, desde seu primeiro dia de vida. Em frente a cada obra havia um anteparo, branco, que escondia toda a obra, pois o segredo, diziam, era que nunca nunguém soubesse como e o que estava sendo construído, apenas pouquíssimos e rarefeitos indivíduos conseguiam permissão de alguém para perpassar, transcender, e adentrar por sob o anteparo. No entanto, às vezes, em determinada época do ano, numa hora específica, e singular, a luz da estrela que banhava aquele lugar incidia na obra por um ângulo ímpar, e a sombra projetada sobre o anteparo, nessa conjuntura, era única e latente. Nesse dia, um dos vizinhos estava passando pela calçada quando olhou para aquele anteparo, e naquele momento ele teve certeza, absoluta, que ele precisava conhecer aquela obra, porque ela tinha muitas coisas que lembravam a dele, a fachada, os contornos, a tendência, o porte, a genialidade, o brilhantismo, tudo erigido sob o signo de uma sobra cintilante, num segundo revelador. Com o passar do tempo os vizinhos acabaram se conhecendo e um dia aquele que havia visto o momento ímpar pediu para adentrar o limiar, e o outro só aceitou com a condição de que precisaria visitar a obra do outro primeiro. Pois não, o vizinho entrou na construção ao lado, revirou cada pedra, teve acesso a cada escada, visitou cada cômodo, sublinhou com a mente cada afresco, memorou salientando cada coluna. Depois disso o vizinho que abriu as portas de seu maior segredo pediu para ter acesso, enfim, a construção do outro, e aí o que se sucedeu foi uma intensa tormenta do destino. Enquanto se dirigiam ao outro anteparo o céu nublou, escureceu, as nuvens enegreceram e os relâmpagos começaram a soar, o ventu surgiu numa velocidade assutadora, e quando eles adentraram pelo limiar, o vizinho antes cheio de curiosidade e expectativa percebeu que a maioria das portas estava fechada para ele, que as escadas estavam bloqueadas, os acessos trancados e que apenas algumas áreas estavam abertas a visitação. Tempos depois o vizinho que havia aberto as portas do seu edifício percebeu que muitas outras fachadas de outros lotes de outros vizinhos estavam cheias de suas idéias, que os interiores secretos e sigilosos que ele havia repartido de todo o seu coração haviam sido violados, maculados, e ele se perguntava o porque desse desastre. O porque de uma visita que levou consigo seus sentimentos, seus segredos, seu trabalho, árduo, de construção de uma vida toda. A dúvida do porque seu vizinho-exemplo-herói-afeto havia feito isso com ele.

15 de fevereiro de 2009

Uma montanha-russa ao contrário, uma estação em que se embarca pra voltar, um vagão de cabeça pra baixo. Tudo aquilo que era pertinente à estação de trem estava do avessso, numa ordem inintelegível, aleatória, caótica e desordenada. Embrulhava o estômago dele ter que ver e presenciar. Sentia como se lhe colocassem uma mão dentro do peito, e lá dentro, era como se um punhal fosse descoberto, silenciosamente posicionado e então ele era rasgado por dentro, mutilado, não havia piedade alguma, não havia misericórdia nem redenção. A dor explodia dentro do seu peito e cegava sua mente, os gritos surdos subiam e desciam pela garganta e ele não conseguia ver mais nada, ouvir mais nada, sentir mais nada. As implosões não cessavam, se sucediam, demoliam cada estrutura, cada resistência, tijolo por tijolo dos muros pretendidos a proteger o castelo. A contradição de sentimentos o aniquilava, e cada segundo a diante naquela montanha-russa às avessas, era como um mergulho no vazio da ausência, da voz que não perpassa a boca, do lábio perdido no escuro, do sorriso que sempre oculta a lágrima. Eu não sei como, mas eu não queria ter olhado pra fora.

12 de fevereiro de 2009


Eu não sei como, mas você deveria olhar pra fora agora.

31 de janeiro de 2009


Minha violência é um monstro às avessas. A energia da dor e do sofrimento alimenta um ser que é como veneno letal condensado, de uma dor mágica e enegrecida pelas formas e pelo tempo. Ela é uma cobra sem boca, uma abelha sem ferrão, um escorpião sem cauda, uma água-viva sem toxina, um orifício sem espinho, um leão sem dentes, um gavião sem olhos. Minha violência não extravasa, ela se dissolve em mim e se acumula em cada extremidade, em cada pedaço de meu corpo, estou tomado pela raiva e pela culpa, e como não consigo extingui-las, nem esquece-las, nem transpassa-las, elas me envenenam, me envelhecem, me definham, minha violência me mata por que ela compete com o ímpeto de vida que habita em mim. Minha raiva e meu ódio não podem ser compartilhados porque não mudam a história, porque não reescrevem meu nascimento, porque não alteram a dor do que passou, as palavras que foram ditas, as cenas assitidas, os socorros não atendidos, minha raiva é como um amor não correspondido, como minha maior e mais profunda paixão rechaçada na mais perfeita comparação, na mesma proporção. Pergunto agora o que faço com toda a dor, a mágua, a raiva, a rejeição, e aqueles dias eternos dessa vida tão curta mais tão marcada, o que fazer de uma vida que começou torta, errada, incompleta. Eu não encontro reflexo do que sinto no mundo palpável, meus sentimentos são indesejáveis, condenados, desaprovados, inoportunos. Onde foi que eu errei é mais uma indagação, da coleção mais absurda e crua que tive de ouvir. Erro? Talvez nascer seja um erro, do qual sempre me atribui culpa. Hoje, com a ciência de que não posso retornar pra tentar ser diferente do que sou me resta a confusão que me domina. Quero encontrar a válvula que libere, a substância que metabolize, a palavra que trucide, o encontro que dilacere, quero que minha violência morra e que não me mate, quero que meu ódio me abandone e me deixe só, como sempre fui e sou, quero que minha mágua parta de mim em cada lágrima como essa, agora, que escorre do lado esquerdo da face, quero paz pro passado que não volta e luz, faço esse pedido de urgência e de entrega, porque meu futuro é negro, as sombras se espalham pelo chão e meus passos são cegos, meu presente de espera e dor é tortura, e eu proclamo, com cada letra de cada palavra que ainda posso proferir, que eu não aguento mais. Minha vida é um acumulo absurdo de lembranças e medos, de rejeições e isolamentos, a solidão que é defesa também é prisão, e a exclusão de um amor que ama e que machuca e que o faz pretendendo incluir é meu maior algoz. Eu não escolhi tanta coisa, a maioria das coisas que aconteceram comigo eu não tive como escolher, como uma criança pode saber o que sentir ou não, o que ouvir ou não, o que assitir ou não, como repartir algo que não pode ser repartido. Eu só não sei das coisas, eu não sei quando, nem onde nem como porém um dia isso tem que acabar, e eu espero, com todas as forças que ainda restam dentro do meu coração, que a esperança continue a me guiar, e que eu saiba subir desse poço, fundo e escuro, gelado e infinito no qual eu cai, e que minha âncora seja leve pras minhas asas, e que não me acorrente, nas profundezas, na pedra mais pesada, pra sempre, até o meu fim.

16 de janeiro de 2009

Era um caminhante solitário, desengonçado, e triste. O vento em seu rosto era fresco, lavado pela chuva ele trazia encerrado em si a noite e o entardecer certeiro e gradual. A grama em seus pés estava verde, viva, vibrante, havia gotas fixas em toda a parte, em toda folha, como se num mosaico salpicado, bicolor e translúcido. No limiar do caminho estavam as pedras, sujas de terra, borradas num marrom manchado, forte e tenaz, ao longe se avistavam os pássaros, partindo, pra longe. E a sua companhia era a canção que tocava todo dia no mesmo tom, cantada pela mesma voz, acompanhada pela mesma dor, uma dor que não lhe doia na perna, no braço, ou nas costas, era uma dor estranha, intensa e branda ao mesmo tempo, uma dor que não passava, que esmorecia e revigorava-se sempre, uma tristeza leve e persistente. Seus pés calçados ignoravam a sola de seus calçados, e estavam molhados, atendiam ao tato sentindo a água gelada da chuva, intermitente, teimosa, cinza, como se os céus fizem a sua vontade. O garoto tinha lágrimas guardadas, extravasando, enchendo-lhe, na borda de sua razão, a fonte de sua distinta resistência. As árvores balançavam ao som do vento, como se em sintonia, ora leves, ora agitadas, elas cantavam ao seu modo, acompanhavam seu caminho, correspondiam à sua presença com sinais sonoros. Ele caminhava devagar e deixava a água escorrer por suas roupas, agora encharcadas, e tentava fixar seu olhar no horizonte, nublado, turvo, inconsistente. A palma de suas mãos mexia em seus cabelos como forma a suavizar sua tristeza, quem sabe talvez elas procurassem uma entrada para sua mente, uma forma de apalpar o que doia, de retirar o que latejava, de atenuar seus sentimentos, gastos, confusos, inconformados, marcados pelo caminho que jazia pelos seus passos traçados. A noite caía mais uma vez, junto dela raiava a primeira estrela, luzindo, perene, no começo do céu, acima da borda nublada e ainda clara pelos restos do dia. Suas roupas estavam pesadas e seu corpo já não lhe respondia mais como antes, cada passo era mais gelado, difícil, e cansado, e suas memórias vivas pareciam lhe dizer pra parar, pra encerrar essa jornada louca, solitária, esperançosa e penosa. Cada árvore acomodava-se agora que o vento arrefecia, grilos, esparços e cigarras, juntas, emitiam suas vozes com vigor, paixão e vontade, sensações e sentimentos que o abandonavam pouco a pouco, sua vida era como uma âncora em terra firma a ser carregada, apesar do costume, ela nunca estivera tão pesada, e residia nesse fato, da fadiga e do esgotamento, a essência dessa dor crescente e forte, uma desesperança tão real e palpável que ele já sentia o frio da noite nos olhos que marejavam e soltavam aquelas lágrimas salgadas, concentradas, retidas, e ele cedeu à força do peso, e sentou, na noite caindo, fria e gélida, sob aquela chuva sem vento, numa paz irônica e cruel, sob os pontos cravados de estrelas longínquas no céu e sonhos perdidos nos seus passos, pelo caminho marcado, que ficava para trás, sozinho.

15 de janeiro de 2009


A música soava leve e sincera, e ricocheteava em sua alma, tocava em cada medo, em cada temor, em cada sonho, cada espera, cada necessidade postergada, silenciada e amordaçada. Ele caminhava meio sem saber o que esperar, o que pretender, o que querer, na verdade, quanto mais se conhecia e sabia, menos entendia, uma razão estranha, uma ordem que não era dele, determinações, rótulos, marcas de uma vida tão descolorida, tão traçada a caneta, sem direito a borracha, lápis, correção branda, com coloridos de lápis de cor emprestados, ausentes, diminutos, rarefeitos. Amar era como o estranhamento de um encontro, como uma espera boa e gelada. Ele era um garoto que amava, em silêncio, em volume alto, ele amava em tantos tons, em tantos matizes, ele amava em canção, ele amava em palavras, ele amava em olhares, e ele amava cada dia quando acordava, e era cego, e inebriado, e tonto, e ele era tudo o que era pelo amor. Ele amava demais, e talvez amasse errado, ele era entupido de amor, amor que não fluia, não trocava, amor que não tocava, não sentia, amor que não se permitia, que se acorrentava, se escondia, amor que confundia, que atordoava, quem sabe tudo sempre fora questão de amor e dor e sentir?
Havia umas lágrimas escondidas em cada nuvem de cada pôr-do-sol dos últimos dias, havia um sentimento de tristeza por trás de cada música, cada filme, cada beijo assistido, em cada eu te amo visto, havia medo, tristeza, culpa e dor por de trás de cada palavra dita e sorriso entregue, havia tanto a ser discutido por ele. Havia amor, e tristeza, e a espera, e isso era tudo. Ele se montava todo dia, se desmontava em cada crepúsculo e ele pensava quantos dias mais, quantas semanas, quantos meses ainda resistiria a essa auto-linha de montagem, a esse medo de viver, a essa resistência de dor, a essa mágua do mundo, a esse céu escuro de nuvens carregadas que não deixavam espaço pra entrega, como a de cada raio de sol, em cada novo alvorecer.

11 de janeiro de 2009



Era como uma praia cinzenta, num inverno incessante, num fim de tarde nublado, gelado e escurecendo. Seu interior tinha tantas semelhanças com aqueles cenários, paisagens que traduziam suas emoções, cada novo dia, mesma vida estática, congelada, derretendo aos poucos, num degelo que obedece a uma lógica absurda e inversa. Ele sempre chegava a conclusão de que estava cansado. Um nada sempre adormecido despertava, e com ele a força destrutiva e irrefreável do vazio. Um silêncio tão gritante e pavoroso que extinguia cada sopro de vida, que eliminava cada feixe de luz, que definhava cada sonho, detalhe por detalhe, e os desfiava até sobrar um monte de ilusões gastas, recicladas, novas e velhas simultâneamente. As folhas que ele teimoso fez nascer, e brotar, e ganhar envergadura cediam ao passado de ausências, dor e medo e emagreciam como sua face jovem e marcada. O caule que sonhava ser vistoso, e que havia estado na transição de seu verde juventude para o marrom adulto, interrompera seu ciclo, ele enegrecia e se tornava mole, como se num choro interno, morrendo, não pudesse pedir socorro mas pedia. Ele tinha vontade de renascer ele diferente. Como o sol que irrompe a escuridão de cada manhã, ele queria amanhecer sem marcas na sua pele tão gasta, ele queria que suas mãos fossem tão mais lisas, e que o toque áspero não lhe pertencesse, ele queria ter os olhos brilhantes, de oceano, que ele já portara, ele queria receber novamente a capacidade de estado sinistro, gauche, ele queria ter podido ser tão feliz. O passado era como um jantar atravessado, mal digerido, não mastigado, como aqueles remédios encapsulados que somos obrigados a tomar e que nos trancam a garganta. Suas pontadas eram cada vez mais agudas, pontuais e concentradas. O entendimento havia trazido mais certezas e mais confusão. O céu nublado, a canção triste, incompreendida, sua alma cheia de inflamações, tantos cenários, quantos personagens e na soma de balanço, que tremenda solidão. O macio dos lençois rasgados ia embora com a incapacidade de exercer seu papel, o tempo chamava o tecido de volta, a se tornar resto, a se decompor em paz. Os gritos mudos de dentro dele ainda não tinham cessado. Ele estava cheio de um vazio povoado, de uma confusão pretendida a ordem, de barulhos inaudíveis, de canções tocando sem autoria e letra. Os tantos não fins de todas as histórias não suas eram muito para tão pouco espaço, as grades não eram tão maleáveis, sua capacidade não era tão dúctil, sua força era muito mais volátil do que sua esperança, seu medo vencia sua coragem, e a cegueira pela dor forçava a luz a não voltar mais, a reluzir dourada, e intensa, e por fim, se extinguir.

30 de dezembro de 2008

O verde e o silêncio compunham um arranjo dúbio: a paz e a tranquilidade se entrelaçavam à solidão que vivia na borda, à espera de um convite para estar junto. Foram dias vendo a noite cair, o silêncio chegar na espera vigilante por todos, por eles. Foram tantos medos, e tantos receios, e tanto escuro, que estar sozinho era cruzada intransponível e traumática. Pavor dele, medo, dor. O céu estava muito mais azul do que sempre estivera, as nuvens estavam longes, e tanta coisa estava mais clara. O tempo passava e ia arrastando, levando com ele tudo aquilo que estava há muito estancado, parado, barrado, cedido. Palavras, letras, coisas soltas, tons que se acumulam, sons, batidas do coração, são nós na garganta e epifanias que traduzem sentimentos, sensações, que entregam ao mundo seus sonhos, devaneios, vontades, desejos de menino, homem, filho, ser humano.O mesmo verde e a mesma tranqüilidade agora se travestiam em novo caminho, em esperança de olhos arregalados, em vento que sopra rejuvenecido pelo alvorecer das novas chances, dos novos olhares, do querer novos amores, novas paixões e com aquele cheiro característico, fresco, convidativo de tudo aquilo que é novo. Poente que era simbólico de renascimentos precedidos de quedas, da sina que cumpre-se à risca. Água gelada que anuncia batismo, coração ritmado que se reconquista, fé na digestão do pretérito e nos encontros cheios de desafios do novo ano, música que conduz, inspira, encontro que aglutina, nota que pesa, que formata, amarelo que envolve, luz que cobre e engrandece, dourado que anuncia, areia que circunda.Respeito que é aprender, vontade de gritar bem alto, pro infinito, peixinhos, branco alvo, olhar cruzado, oceano, viver matizado em corpo, desenho, traço, encanto da vida. Sonho do conto de fadas ainda não vivido, da peça assitida, da atuação cativa no futuro. Vida viva que espera ansiosa por amor.



20 de novembro de 2008


Cada movimento é pesado como ferro.
Cada palavra é áspera como lixa.
Cada pensamento é pontiagudo como espinho.
Cada dia é dor que urge, não sara, tremor que não se retém, origem latente, que escorre, desce em lágrima, a prestação, coração estilhaçado em revolta implodida, amor negado, rejeitado de forma explícita, letra por letra ignorada, não respondida, jogada fora, como lixo, montes dele, era ele.
Desencontro quotidiano.
Dos fins de todos os não (ou quase) começos.
Socorro que não chega. Ajuda que não ampara.
Caminho que não aparece. Mágica da vida que esgota, cansa, arrefece, aquieta, cega, inebria, sonambuliza, afoga, abafa, cala, dorme o sono da fome de vida.

18 de novembro de 2008


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo

Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa curiosidade pelo momento a vir

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinícius de Moraes 15/04/1962

15 de novembro de 2008

7 de novembro de 2008


ascenção apogeu e queda da vida paixão
e morte
do poeta enquanto ser que chora enquanto
chove lá fora e alguém canta
a última esperança da luz e pegar o primeiro trem
para muito além das serras que azulam no
horizonte
e o separam da aurora da sua vida

Leminsk


Obra


22 de outubro de 2008


"Cada pedaço de mim sabe o inferno que é ser sol em noites de chuva, ser cor nos cinzas dos edifícios, ser luz na escuridão das manhãs. Cada todo de ti sabe a delícia que é ser flor nas asas do vento, ser cristal nos olhos das fadas, ser azul no fundo do mar. Cada suspiro de nós sabe a angústia que é ser só um na multidão dos dias, ser muito na pobreza da esquina, ser ninguém na roda da vida. Enquanto isso os relógios se vão, e vêem aqueles que sabem o que é apenas ser na ausência do nada".

"O medo sempre me guiou para o que eu quero. E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que eu amo é arriscado."

"Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu.
Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil.
Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu."

"Eu sinto uma beleza quase insuportável e indescritível.
Como um ar estrelado, como a forma informe, como o não-ser existindo, como a respiração esplêndida de um animal. Enquanto eu viver terei de vez em quando a quase não-sensação do que não se pode nomear.
Entre oculto e quase revelado. É também um desespero faiscante e a dor se confunde com a beleza e se mistura a uma alegria apocalíptica."

"Todo momento de achar é um perder-se a si próprio."

"Talvez o que me tenha acontecido seja uma compreensão - e que, para eu ser verdadeira, tenho que continuar a não estar à altura dela, tenho que continuar a não entendê-la. Toda compreensão súbita se parece muito com uma aguda incompreensão."

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."

Clarice Lispector

Gangorra