22 de dezembro de 2012
23 de agosto de 2010
3 de maio de 2009
Realidade e sonho se misturam de uma forma tão nova e intensa que eu me sinto apavorado pelo gigantismo que isso me traz. Eu me sinto como uma formiga frente a um imenso jardim de folhas verdes, prontas pro corte. E tem uma lua no céu agora. Existe alguma coisa que começou e que me deixa anestesiado, completamente confuso, e com medo, e com tudo aquilo de mais intenso que existe. Porque no fundo eu acho que isso não existe. Isso não pode ser real. Existe sempre alguma coisa suspensa e dessa vez a suspensão foi tão intensa que condensou, e se liquefazendo desceu. Em cada pedaço de cada canto da minha alma me sinto diferente. Eu não sou mais eu mesmo porque eu nao me reconheço mais, é como se tivessem reiniciado alguma coisa dentro de mim, meu passado esmorece, minhas lacunas se abreviam, minha tristeza mingua e eu me sinto invadido por aquele calor que me toca, que me atordoa porque eu nunca tinha podido sentir e eu pude. E eu queria que você soubesse que hoje, mais do que nunca, foi tão especial e tão singular que não consigo dizer mais nada. Só que eu sinto e isso é fantasticamente intenso. Obrigado.
24 de abril de 2009
Eu não sei o que escrever agora. E eu sinto uma necessidade incomensurável de fazê-lo. É como uma primavera inteira esperando por florescer, em cada jardim, nas avenidas todas, em cada botão de rosa, ansioso, curioso, impetuoso por desabrochar por inteiro. Como uma nuvem carregada de chuva, pronta pra chover toda a água, que há tanto carrega. Como uma semente que vê sua hora de germinar chegar e coloca sua raiz pra fora em busca de nutrientes e vida. Existe alguma coisa pendente no vento, como se o ar tivesse uma mensagem oculta mas sensorialmente perceptivel, carregado de impressões respiro-o, e acabo sorvendo a mim mesmo em cada inspiração, expirando vejo que já estou dentro de mim, procurando às vezes, pra não confessar que sempre, aquilo que estou à espera. E isso me atenua, me abrevia, me arrefece, me introjeta transformando. Porque eu não sou mais eu mesmo e quem trouxe isso foi você. Você me legou uma incorporação que marca pelo impressionismo e pela verdade. Simples e trivialmente adjetivando me perco quando sinto a tua presença. Minhas palavras se esvaem e eu fico atordoado e perdido como quando se levanta atrasado e se sabe que perdeu alguma coisa imperdível. Como quando está-se no melhor lugar pra ver um apoteótico momento ou quando assite-se ao desfecho de alguma coisa que esperou-se em demasia. As notas que escuto agora complementam cada letra que deixo aqui, porque como emblemas, tornam distintos meus entimentos. Esse é aquele em que eu descortino a magia que me tramou e que me teceu, numa só nuvem, num só céu, que agora onipresente existe sozinho porque não restou mais nada de antigo no firmamento, e tudo foi varrido pela tua aurora e cada pedaço do azul está aguardando pelo teu brilho e pela tua presença singular e coroada de predicados.
17 de abril de 2009
Eu queria que você soubesse que não deu tempo de preparar a tua chegada como eu queria. Faltaram as faixas, os balões, as cornetas, o lanche, as pessoas, a música, as cores, faltou quase tudo porque eu tenho um problema com atraso e que acho que dessa vez meu planejamento deu errado de vez. Eu sabia que você estava chegando, e o mais engraçado é que isso aconteceu de uma forma que eu não estava esperando. Existe uma sincronia ímpar nessa história toda. Eu queria que você soubesse que eu nunca estive tão preparado, nem me sentindo tão estranho. Há dias eu acordo com uma espécie de sentimento de conforto que eu nunca tive, é como se de um dia pro outro você tenha me enchido de vontade, e tenha renovado minhas forças, injetado ânimo, eu acho que houve uma transferência entre a gente e eu estou conseguindo perceber isso, como nunca. Às vezes eu tenho a impressão absurda de que eu estou em contato comigo mesmo, em uma outra fase, meio hoje meio ontem. E a tristeza, pertinente, a angústia, recorrente, a raiva que me envenenava, a desesperança que me dominava, todas as intempéries do meu próprio eu conflituoso foram varridas do céu que existe em mim pra um espaço distante do meu sentir. Eu queria que você soubesse que eu estou tranquilo e que eu não sinto uma incontrolável tensão de agir. Na verdade eu sinto uma espécia de calma envergonhada, como a desse texto por exemplo. Quando materializei a profecia da tua chegada eu estava inebriado pelos meus sonhos e por uma sensação boa que não era só esperança, era algo que amalgamava um teor especial, um matiz de ternura, uma essência cativa de bem, um espectro de completude. E esse é aquele em que eu encerro começando, que te digo que tua presença venceu minha ausência, e num ímpeto de coragem e segurança, afirmo que eu acho que os olhos que achava que tinha visto, eram sim, por fim, escuros.
5 de abril de 2009

Esse é aquele em que a noite é a verdade. Era uma vez um lugar, e nesse lugar existiam pessoas. Aquele não era um lugar qualquer, cada indivíduo tinha um recorte do espaço e podia utiliza-lo como bem entendia, de praxe, cada pessoa construia uma edificação no recorte que lhe era concedido. Dentre aquele mosaico pequeno e limitade existiam algumas pessoas especiais. Dois vizinhos se conheciam desde que se entendiam por gente, no entanto, nunca haviam trocado mais que meros instrumentos, um dia, com o passar do tempo, eles ficaram adultos o suficientes para proceder com a costrução, que começava para cada um, em ritmo mais lento, desde seu primeiro dia de vida. Em frente a cada obra havia um anteparo, branco, que escondia toda a obra, pois o segredo, diziam, era que nunca nunguém soubesse como e o que estava sendo construído, apenas pouquíssimos e rarefeitos indivíduos conseguiam permissão de alguém para perpassar, transcender, e adentrar por sob o anteparo. No entanto, às vezes, em determinada época do ano, numa hora específica, e singular, a luz da estrela que banhava aquele lugar incidia na obra por um ângulo ímpar, e a sombra projetada sobre o anteparo, nessa conjuntura, era única e latente. Nesse dia, um dos vizinhos estava passando pela calçada quando olhou para aquele anteparo, e naquele momento ele teve certeza, absoluta, que ele precisava conhecer aquela obra, porque ela tinha muitas coisas que lembravam a dele, a fachada, os contornos, a tendência, o porte, a genialidade, o brilhantismo, tudo erigido sob o signo de uma sobra cintilante, num segundo revelador. Com o passar do tempo os vizinhos acabaram se conhecendo e um dia aquele que havia visto o momento ímpar pediu para adentrar o limiar, e o outro só aceitou com a condição de que precisaria visitar a obra do outro primeiro. Pois não, o vizinho entrou na construção ao lado, revirou cada pedra, teve acesso a cada escada, visitou cada cômodo, sublinhou com a mente cada afresco, memorou salientando cada coluna. Depois disso o vizinho que abriu as portas de seu maior segredo pediu para ter acesso, enfim, a construção do outro, e aí o que se sucedeu foi uma intensa tormenta do destino. Enquanto se dirigiam ao outro anteparo o céu nublou, escureceu, as nuvens enegreceram e os relâmpagos começaram a soar, o ventu surgiu numa velocidade assutadora, e quando eles adentraram pelo limiar, o vizinho antes cheio de curiosidade e expectativa percebeu que a maioria das portas estava fechada para ele, que as escadas estavam bloqueadas, os acessos trancados e que apenas algumas áreas estavam abertas a visitação. Tempos depois o vizinho que havia aberto as portas do seu edifício percebeu que muitas outras fachadas de outros lotes de outros vizinhos estavam cheias de suas idéias, que os interiores secretos e sigilosos que ele havia repartido de todo o seu coração haviam sido violados, maculados, e ele se perguntava o porque desse desastre. O porque de uma visita que levou consigo seus sentimentos, seus segredos, seu trabalho, árduo, de construção de uma vida toda. A dúvida do porque seu vizinho-exemplo-herói-afeto havia feito isso com ele.
22 de março de 2009
Eu quero te dizer obrigado. E quero te dizer também que eu tenho algumas perguntas. Eu queria que você soubesse que o meu maior desejo, nesse exato instante, era estar na tua frente, face a face. Eu queria poder te dizer cada interrogação e eu queria que todas, todas as palavras sem excessão fossem ditas. Eu queria experimentar essa experiência mútua, bilateral, sincrônica, sincrética, amalgamada, de poder olhar nos teus olhos ouvindo a tua voz, e eu queria conversar contigo sobre absolutamente tudo que eu tenho vontade, e que queria que você me respondesse de peito aberto, com afeto, amizade, confiança, lealdade, atenção, eu queria que a gente pudesse trocar nossos sonhos e nossos sentimentos de verdade. Eu não sei se você sabe mas eu sempre gostei de você. Eu gosto de você porque você é uma pessoa especial. Eu tenho memórias, lembranças, imagens, cenas, fotografia, passado. Eu queria muito que você fizesse parte da minha vida, e você faz. No entanto porque a gente está nessa encruzilhada é uma pergunta que me desceu hoje inteira. Eu acho que quando a gente gosta de alguém, de verdade, não existe lado. Existe a gente. Amizade é amor por que a gente vibra, torce, vive, sorri, discute, conversa com o outro. Amizade é parceria, não competição. Amizade é contato, bem-estar, paz, amor. Amizade é liberdade. É a qualidade de poder ser quem se é com o outro. Eu queria muito que você soubesse que você me ensinou muitas coisas, boas e ruins. Eu queria que você soubesse que se eu pudesse voltar atrás eu teria reescrito muita coisa, e não tenho medo de dizer isso, eu teria voltado anos atrás e teria feito muita coisa de outra forma. Isso, porém, não existe. E o que há, é esse exato minuto, em que eu quero que você saiba que esse é aquele em que eu abri todas as portas do meu coração e da minha alma, e é aqui, despido de todo o manto de sentimentos e ímpetos que me revestem que eu te digo: eu queria que só existisse o nosso lado. Nem meu, nem teu, nem dele. Só o nosso. E que a gente pudesse seguir junto, até onde a vida nos permitisse, porque a gente tem muito pra viver e pra conquistar. E eu só quero ser feliz, fazendo quem eu gosto também. Porque eu acredito, de todo meu coração, que isso é viver.
20 de março de 2009

12 de fevereiro de 2009
27 de dezembro de 2008

Tenho em mim todos os sonhos do mundo. São todos meus. E se não são meus então são eu. Sim, sou uma massa vivente de vontades, desejos, ambições e espera. De todos os múltiplos anos de trezentos e tantos dias, sua grande totalidade deles passei no aguardo, no projeto, na idealização, na sala de espera da vida. Cansei de ficar sentado, mesmo sem saber como me manter em pé, levantei, tentei passos, busquei equilibrar-me e não consegui, cai, me machuquei, clamei por ajuda, me ergui, e mais uma vez, sentei, e levantei, e segui dentro da sala de espera. Sou adolescentemente claro quanto a isso, não tenho mais paciência, tenho urgência, vontade, desejo, sonho, quero felicidade, adrenalina, emoção, movimento, quero cruzar a porta da sala, quero o fluxo, o trânsito, a aventura da existência. Ainda não consigo imaginar o mundo lá fora como ele deve ser, ainda me enfeitiço, me encanto, fantasio em demasia. Espero que a maturação progrida, que eu enrijeça, cresca, intensifique o equilíbrio. Eu quero coragem, sorte e realização. Estou me conformando que somos sozinhos, que nascemos sós, e que ninguém exceto nós mesmos nos acompanha sempre. Céu azul, sol de verão, sorriso na fronte, novo ano de experiência e espera nova. Os bons, como diz a etiqueta, nunca se rendem.
26 de novembro de 2008

O céu tinha nascido como guache misturado no papel pardo do jardim. Azul e branco borravam nuvem e firmamento com o cheiro fresco e úmido da tinta que lambusava os dedos. Dias sem palavra, dias de só sentir, entrega da razão à razão, passos de estrada feita com afinco. Vontade que tinha revigorado energia de seguir, fragilidade da coragem de recomeçar sempre. Esperança gratuita de paz e equilíbrio. Ele olhava pro banho de luz das nuvens e torcia que a chuva fosse embora; não só a de fora, principalmente a de dentro. Falar alto, entender egoista, sol e calor dele, felicidade nele e pra ele que era conflito com quem gostava um pouco. Sentido de conclusão, desejo de êxito, espera de amor, de olhar, de coragem pra seguir no caminho, do afinco pertinente ao sonho do mim. Perdido no deserto de si mesmo a caminho do encontro consigo.
7 de novembro de 2008
2 de novembro de 2008
1 de novembro de 2008
É parcial.Ele sentiu nojo deles hoje, uma raiva boa, quando caminhando sozinho como ele é e sempre fora, viu por alguns instantes o ex-amor, junto com pessoas as quais ele sempre quisera gostar, e naquele momento a razão concedeu certeza de que apesar de tudo de bom que ele havia feito pra ele, havia muito proeminente o mal, a forma com que fora tratado mal, com que agiram mal, e que tinham impropriedades muito salientes -sempre tiveram-, porém nunca pelo sentimento avassalador de antes, ele conseguia perceber, tatear, sentir, e principalmente permitir perceber como era.
A forma com que agiram com ele era a de um vento que soprando machucava e ele anestesiado (in)voluntariamente pelo sentimento não se fazia perceber.
Conseguiu uma liberdade nova. E estava germinando uma semente nova. Num terreno que sempre foi novo. E que continuava sendo. Encarar a si mesmo tinha sido uma aventura que ele nunca aceitou. E até o nunca sempre acaba.
Como o pra sempre que não existe e que ele acredita que pode existir, ele aceitou o desafio e mergulhou, foi muito fundo, tão longe e escuro e gelado que parecia por fim, ter tocado o solo submarino.
E a areia era fina, e fria, e pálida. E ele pode sentir a âncora, inteira, gigante, chumbo escuro, pesando, e estava como que se definindo, aquelas correntes natas, pretéritas, firmadas pelo tempo, que tinham raízes umbilicais com o firmamento ao avesso, estavam ao seu alcance.
Ele tinha ganhado um instrumento que nunca teve, e graças ao apoio ele chegou no fundo, e conseguiu perceber os traços, as cores, e se colocou permitindo a sentir.
Ele não tinha a mínima idéia do que fazer agora.
Não tinha caminho.Não sabia da chave, nem do instrumento, tampouco da capacidade e da força necessárias pra romper o céu que era ele e o englobara, sempre. Haveria um cadeado ou era orgânico, a âncora era parte indivisível, indissociável?
Um firmamento liberdade-prisão, uma ajuda parcial-cooperada, uma interrogação franca e sincera. A batalha ímpar dele. E a memória de um sol nunca visto, a lembrança de um calor nunca sentido. O reservatório de tristeza, que em lágrimas ainda não choradas, espera por se abrir. Como dique, vertente, rio, córrego, riacho, cachoeira, verão verde, gelatina fluida, libertação. Medo da dor que sempre (im)pediu a vida. Dor da tristeza. Tristeza da dor. Semente.

Poucas palavras. Pequenos entendimentos tramados numa codificação indecifrável.
Grandes baques reais, confrontos adiados, remediados, postergados até o limiar do possível.
Encontro ímpar.
Sentimento que eclode.
Entendimento que introspecta.
Necessidade, premência em seguir.
Síntese: começar.
Vácuo, vazio, nada.
Medo, angústia da vida.
Tristeza do tamanho do céu.
Foi o dia das bruxas de 2008.
25 de outubro de 2008

http://www.youtube.com/watch?v=RUwri5brAEY
Hear Me Out
Frou Frou
I join the queue on your answer phone
And all I am is holding breath
Just pick up I know you're there
Can't you hear?
I'm not myself
Well, go ahead and lie to me
You could say anything
Small talk will be just fine
Your voice is everything
We owe it to love
And it all depends on you
So listen up
The sun hasn't set
(I refuse to believe that it's only me feeling)
Just hear me out
I'm not over you yet
(It's love on the line, can you handle it?)
So how do I do normal?
A smile I fake
the "per-ma-nent-way"
cue-cards and fix-it kits
Can't you tell?
I'm not myself
I'm a slow motion accident
Lost in coffee rings and fingerprints
I don't wanna feel anything but I do
And it all comes back to you
So listen up
"This" sun hasn't set
(I refuse to believe that it's only me feeling)
Just hear me out
I'm not over you yet
(It's love on the line, can you handle it?)
Hear me out
Listen up
This time you gotta listen to me - yeah
Look at me straight
Just hear me out
Don't make me wait
I'm not myself
I can't take this
Love's on the line
Is that your final answer?
I join the queue on your answer phone
And all I am is holding breath
Just pick up, I know you're there...
So listen up
"This" sun hasn't set
(I refuse to believe that it's only me feeling)
Just hear me out
I'm not over you yet
(It's love on the line, can you handle it?)
(repeats two more times after this and fades)
Será?
22 de outubro de 2008

http://br.youtube.com/watch?v=P0AZIFmkogY
Deixar escorrer.
E queria que não vertesse vermelho, vivo, em pulsões.
Eu queria que o sangue fosse dourado, brilhante, pura luz.
Imagine se os corpos brilhassem na escuridão, se nas noites geladas cada um fosse lâmpada, talvez não haveria trevas absolutas em ninguém.
As coisas tem que ir embora, tem que partir, tem que nos deixar.
Os ciclos que se encerram em nós exigem esse desprendimento, senão cada tempestade traz de volta sempre os mesmos objetos, pedaços de nós mesmos, de nossas histórias mal resolvidas, de nossas confusões.
Os sentimentos são trovões, os desejos raios, os sonhos chuva, a espera nuvem, e o sol é aquilo do amanhã.
Eu queria ser estrela, estar no firmamento, e queria guardar cada pessoa que amei, junto comigo, lá no alto, como constelação, pois é assim que elas estão dentro de mim.
Sou menino-céu, coração-turba, movimento-música, luz pequenina que insiste em brilhar no infinito escuro.
Chama da idealização, vermelho alto, desejo do dourado, chão.
8 de outubro de 2008
27 de setembro de 2008
24 de setembro de 2008
Título:
Tempestade
Legenda:
"Em certas ocasiões,
o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia,
cujo curso sempre se altera.
Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção.
Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue.
Você muda mais uma vez o seu rumo.
A tempestade faz o mesmo e o acompanha.
As mudanças se repetem muitas e muitas vezes,
como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer.
Isso acontece porque a tempestade não é algo independente,
vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo.
Algo que existe no seu íntimo.
Portanto, o único recurso que lhe resta é se conformar
e corajosamente pôr um pé dentro dela,
tapar os olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia
e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado.
É muito provável que lá dentro não haja sol, nem lua,
nem norte e, em determinados momentos, nem hora certa.
O que há são apenas grãos de areia finos e brancos como
osso moído dançando vertiginosamente no espaço.
Imagine uma tempestade de areia desse jeito.
...
E você vai atravessá-la, claro.
Falo da tempestade.
Dessa tempestade violenta, metafísica e simbólica.
Metafísica e simbólica, mas ao mesmo tempo cortante como mil navalhas,
ela rasga a carne sem piedade.
Muita gente verteu sangue dentro dela,
e você mesmo verterá o seu. Sangue rubro e morno.
E você vai apará-lo com suas próprias mãos em concha.
O seu sangue e também o de outras pessoas.
E, quando a tempestade passar,
na certa lhe será difícil entender como conseguiu atravessá-la e ainda sobreviver.
Aliás, nem saberá com certeza se ela realmente passou.
Uma coisa porém é certa: ao emergir do outro lado da tempestade,
você já não será o mesmo de quando nela entrou.
Exatamente, esse é o sentido da tempestade de areia."
(Kafka à beira-mar, Haruki Murakami. pg. 7~8)




