Eu preciso de um resgate. Um anjo que me jogue cordas ou uma boia grande pra eu me segurar. Talvez uma escada firme pra eu ter por onde subir. É como se eu estivesse dentro de um labirinto de cercas-vivas gigantes. Rodeado por caminhos entrecortados, monstros nas sombras, sem saída olhando pra um céu que é o único espaço aberto. Sinto meu coração divergente, plastificado, como uma pele recém-curada temerosa por novas lesões excruciantes. Tenho medo de romper abismos. Como se abandonar o passado que já se foi fosse algum tipo de provação ainda não experimentada. Me sinto inocente. Me recrudesço. Me enclausuro vitimizado. Parece uma sina elástica que não te deixa seguir em frente. Uma ciranda macabra que te aprisiona. Um cárcere de grades livres que você se inventa. Eu queria um mapa aberto. Um guia solúvel de como sair de mim. A liberdade me apavora por não saber estar com ela. Não sei se vou conseguir transpor as montanhas pra estar contigo um dia, e isso me angustia. Sou uma grande angústia encapsulada. Uma represa de tristeza sempre transbordante. E enquanto me ridicularizo por me metaforizar continuo me escondendo, não sei se feito criança assustada ou homem covarde, fugindo de seus próprios porões, dores latentes, de minha eterna incapacidade de me assumir vivo
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10 de fevereiro de 2012
Eu preciso de um resgate. Um anjo que me jogue cordas ou uma boia grande pra eu me segurar. Talvez uma escada firme pra eu ter por onde subir. É como se eu estivesse dentro de um labirinto de cercas-vivas gigantes. Rodeado por caminhos entrecortados, monstros nas sombras, sem saída olhando pra um céu que é o único espaço aberto. Sinto meu coração divergente, plastificado, como uma pele recém-curada temerosa por novas lesões excruciantes. Tenho medo de romper abismos. Como se abandonar o passado que já se foi fosse algum tipo de provação ainda não experimentada. Me sinto inocente. Me recrudesço. Me enclausuro vitimizado. Parece uma sina elástica que não te deixa seguir em frente. Uma ciranda macabra que te aprisiona. Um cárcere de grades livres que você se inventa. Eu queria um mapa aberto. Um guia solúvel de como sair de mim. A liberdade me apavora por não saber estar com ela. Não sei se vou conseguir transpor as montanhas pra estar contigo um dia, e isso me angustia. Sou uma grande angústia encapsulada. Uma represa de tristeza sempre transbordante. E enquanto me ridicularizo por me metaforizar continuo me escondendo, não sei se feito criança assustada ou homem covarde, fugindo de seus próprios porões, dores latentes, de minha eterna incapacidade de me assumir vivo
Nomeando:
angústia,
confusão,
doze,
inexprimível,
verdade
25 de setembro de 2011

25 de abril de 2010
4 de janeiro de 2010
Resumindo são mais do que algumas simples considerações. É mais ou menos como um fim de tarde desses de céu rosado, e com uma estrela brilhante e única que eu pude assistir esses dias lá longe naquelelugar fechado e fundo e vazio. E até lá tem desses fins de dia pra se ver. Eu acho que eu fiquei tempo demais me escondendo nas tuas sobras, me alimentando daqueles poucos pedaços de tudo que você deixava cair, de algumas migalhas que escorregavam do teu prato cheio de comida. Eu cansei de ser espectro, fantasma, assistente, coadjuvante. E vem sempre aquela sensação de frio da realidade, de medo do choque, todas aquelas borboletas vivas e coloridas que forram meu estômago de vez enquando. Acho que eu estou escrevendo isso hoje porque ando meio tomado pelo silêncio e pelo cansaço, pela calma, do esgotamento e uma espécie não-ruim de penúmbra, me sinto livre e preso numa atmosfera meio escura meio clara que nunca me foi simpática. E em verdade acho que você ainda é uma das únicas, poucas e últimas coisas que ainda consegue despertar meus demônios, fazer falar os dragões, desnudar minhas fraquezas mais gritantes, quase só você consegue me dar aquele ímpeto efêmero de me fazer traduzir pelas letras que eu costumo depositar aqui, nesse esboço patético do eterno adolescente que eu ainda custo a acreditar às vezes que eu me tornei.
12 de maio de 2009
São todas as nuvens misturadas como todas as cores juntas. É como quando se olha pro alto e se vê aquele céu perfeito e não se acredita que aquela perfeição toda pode ser real. Perfeição dói como tudo aquilo que nos alcança lá no fundo, no que temos de mais frágil e sensível, porque é algo da ordem da intangibilidade, ou da não-concretude. Imagine uma sala escura, imagine a ausência de luz, imagine uma missão a ser cumprida -algo como definir cores- e agora lembre-se que você é cego. Existe sempre alguma coisa suspensa no ar. Há uma fragrância indefinida, uma sensação não nomeada, um sentimento dissolvido, uma pretensão solta. Todas as palavras não encontram correspondência e ordem porque por enquanto não existe coordenação do lado de dentro de mim. É o não-saber que opera de dentro pra fora sob o signo da mesma estrutura que se montava à espera do melhor momento, da melhor terra, pra melhor semente, que merece crescer como melhor árvore, e que vai fazer muitos anos de vida porque merece muitas faixas e balões coloridos e intensos porque tudo isso cheira felicidade. Os ponteiros dos relógios todos, por toda a parte, trazem uma mensagem solúvel e que lembra alguma coisa parecida com adstringência. As nuvens coloridas naquele céu poente tentavam traduzir a infertilidade dos meus esforços por tentar me fazer legendar. E esse é aquele que me diz que palavras são palavras e que tudo aquilo que eu sempre achei que fosse era.3 de maio de 2009
Realidade e sonho se misturam de uma forma tão nova e intensa que eu me sinto apavorado pelo gigantismo que isso me traz. Eu me sinto como uma formiga frente a um imenso jardim de folhas verdes, prontas pro corte. E tem uma lua no céu agora. Existe alguma coisa que começou e que me deixa anestesiado, completamente confuso, e com medo, e com tudo aquilo de mais intenso que existe. Porque no fundo eu acho que isso não existe. Isso não pode ser real. Existe sempre alguma coisa suspensa e dessa vez a suspensão foi tão intensa que condensou, e se liquefazendo desceu. Em cada pedaço de cada canto da minha alma me sinto diferente. Eu não sou mais eu mesmo porque eu nao me reconheço mais, é como se tivessem reiniciado alguma coisa dentro de mim, meu passado esmorece, minhas lacunas se abreviam, minha tristeza mingua e eu me sinto invadido por aquele calor que me toca, que me atordoa porque eu nunca tinha podido sentir e eu pude. E eu queria que você soubesse que hoje, mais do que nunca, foi tão especial e tão singular que não consigo dizer mais nada. Só que eu sinto e isso é fantasticamente intenso. Obrigado.
25 de abril de 2009

Existe alguma coisa no céu que me encanta. Sinto que o azul do firmamento e as estrelas, e as nuvens, todas, das cores mais diversas, tudo que é celeste prende meu olhar e me tira o fôlego numa sequência que não encontra mais fim. É como quando se está na praia à espera do fim das ondas, numa ciranda que obedece a sina de esperar a vaga melhor por partir, porque você já não sabia mais pra onde ir e agora mesmo é que você tem certeza disso. Existe alguma coisa suspensa no ar e eu acho que ela exala alguma coisa que me lembra liberdade, ou a vontade de ser. Existe uma nota que soa intermitente dentro de mim e que ecoa pelo vento como quem leva a semente que vai desabrochar e nascer árvore um dia, e que está à procura da melhor terra, pra melhor semeadura, e isso depende da força do vento e da sorte da semente. Eu sinto que existe uma casca quebrando, aos poucos, existe alguma coisa a ser dissociada e é aquilo que eu mesmo quero que seja feito em mim. Eu preciso do desprendimento definitivo daquilo que me traz a tristeza e o medo, de todas as sortes, daquela solidão-âncora em terra firme e de todas as decepções possíveis que eu tenho medo de viver. Porque esse é aquele em que eu somo em adição ao que eu escrevi e apaguei outro dia, e porque eu quero te entregar aquilo que eu tenho de melhor, na condição mais especial, no momento ideal, na sintonia mais perfeita que minha imperfeição pode gerar sendo quem sou. E eu queria que eu mesmo soubesse o que é que tem acontecido comigo, porque aquela estranheza parece ser teimosia, e isso é tão bom que hoje eu sinto como se há muito eu tivesse perdido alguma coisa e parece que eu encontrei. E ela tá insistindo em ficar, e o céu continua me atraindo, com aquela força que me hipnotiza e me satisfaz, parcialmente, porque eu ainda não me sinto desacorrentado completamente das correntes todas que me ligam ao tempo, porém eu acredito que a chave de cada cadeado vai chegar a tempo, e se eu conseguir sair daqui pra não chegar tão atrasado naquele dia, eu tenho certeza que o céu vai me fazer sentir, pela primeira vez, que eu consegui ser o garoto que eu me tornei.
24 de abril de 2009
Eu não sei o que escrever agora. E eu sinto uma necessidade incomensurável de fazê-lo. É como uma primavera inteira esperando por florescer, em cada jardim, nas avenidas todas, em cada botão de rosa, ansioso, curioso, impetuoso por desabrochar por inteiro. Como uma nuvem carregada de chuva, pronta pra chover toda a água, que há tanto carrega. Como uma semente que vê sua hora de germinar chegar e coloca sua raiz pra fora em busca de nutrientes e vida. Existe alguma coisa pendente no vento, como se o ar tivesse uma mensagem oculta mas sensorialmente perceptivel, carregado de impressões respiro-o, e acabo sorvendo a mim mesmo em cada inspiração, expirando vejo que já estou dentro de mim, procurando às vezes, pra não confessar que sempre, aquilo que estou à espera. E isso me atenua, me abrevia, me arrefece, me introjeta transformando. Porque eu não sou mais eu mesmo e quem trouxe isso foi você. Você me legou uma incorporação que marca pelo impressionismo e pela verdade. Simples e trivialmente adjetivando me perco quando sinto a tua presença. Minhas palavras se esvaem e eu fico atordoado e perdido como quando se levanta atrasado e se sabe que perdeu alguma coisa imperdível. Como quando está-se no melhor lugar pra ver um apoteótico momento ou quando assite-se ao desfecho de alguma coisa que esperou-se em demasia. As notas que escuto agora complementam cada letra que deixo aqui, porque como emblemas, tornam distintos meus entimentos. Esse é aquele em que eu descortino a magia que me tramou e que me teceu, numa só nuvem, num só céu, que agora onipresente existe sozinho porque não restou mais nada de antigo no firmamento, e tudo foi varrido pela tua aurora e cada pedaço do azul está aguardando pelo teu brilho e pela tua presença singular e coroada de predicados.
20 de março de 2009

Esse é aquele em que ele precisa deixar as palavras sairem, já que não podem de outra forma. A distância faz da percepção uma qualidade mutante. O espaço transforma a impressão, acentua o sentido, faz da ausência a presença invertida eterna da qual somos pacientes. Ele não sabia o que escrever, não sabia o que dizer, que palavras pronunciar. Porque a complexidade das pessoas às vezes era de uma demasiedade intragavel, inabsorvível, inassimilável. Ele queria que as coisas fossem mais simples, mais claras, mais sinceras e verdadeiras. Ele queria dizer que as coisas não precisavam ter que ser assim. Pessoas não são objetos, brinquedos, peças de um jogo de montar. Naquela manhã tudo tinha sido tão perfeito e tão brilhante que o tempo poderia ter congelado e se perpetuado sempre assim. Não que não devesse cruzar a linha cronológica arrastando e levando as coisas e remodelando, tudo, num ritmo novo e intenso. Ele queria dizer que esperava ,sim , o melhor das pessoas. Ele queria dizer que acha que afeto existe, que lágrimas talvez não adiantem, e que não há falta na ausência. Ele queria deixar claro que poderia estar tudo certo. Mas que não depende só dele. Você sabe disso. Não existe controle. Segurança é ilusão. As palavras o abandonavam no mesmo ritmo em que um mar de sentimentos e letras o envolvia. Olvidar é cruzada. As perguntas, todas, as verdades, meias, as omissões inteiras, as mentiras partidas O caminho entrecruzado de sempre. A espera de quem se deixa afetar, eis de onde vem afeto. Ele queria sinceridade e verdade. Porque esperança é fé e amizade é amor.
4 de novembro de 2008

Suas palavras foram postas na máquina de lavar.
Depois do banho de razão, água e sabão, apesar de não encharcadas, as palavras pareciam amarradas ainda, tramadas pela centrífuga, enredadas por completo.
Ele estava com dificuldade em abrir a tampa da máquina e isso era muito estranho.
Toda vez que as palavras não saiam era porque alguma coisa estava se alterando. Dias diferentes, comportamento mutante, confusão. (?)
Centrifugar
29 de outubro de 2008
Os seus dias tinham ficado meio diferentes, mais do que os já diferentes e novos dias anteriores. Medo e expectativa circundavam cada passo que ele sempre deu e continuava dando. Era como se uma aura disforme e condensada sempre estivesse rente ao solo e sob seus pés. O prato vazio encerrava migalhas claras e escuras, como num xadrez bagunçado, e os talheres dispostos sem ordem acompanhavam o copo vazio e a bagunça de seu.Não parava de cair água do céu. O mesmo céu que parecia ser o lugar que ele sempre mais gostou, dos seus sonhos musicais e sacros, o mesmo alto onde ele sempre quis chegar, das estrelas que ele desejou um dia tocar. O firmamento era o palco dos vôos, como ele quis voar! Imaginação e realidade se combatiam a todo momento, numa batalha perpétua que lhe cansava cada dia mais, e que ia lhe esgotando, a conta gotas.
Que vontade de deslizar pelos céus, quanta vontade de daquela liberdade macia e carinhosa que ele procurava.
O céu estava cinza claro, e há dias tinham lhe dito que ele era cinza; que só usava cinza. Dentro da mensagem estava um recado, o mesmo recado que ele se mandava e não ouvia, procurar o cinza era uma forma de se anular, sempre fora, uma fase foi branco, e durante meses só vestiu a mistura única e branda de todas as cores, porém, há dois invernos o cinza era seu maior companheiro.
Um cinza que subtituiu a palidez alva, uma nova cor tinha casado com a sua vontade de calar, de arrefecer, e de apagar silenciosamente, sim, porque talvez ele achasse que já chamava atenção de mais por si só, e enquanto vestido com a neutralidade, quem sabe isso não deixasse as coisas mais turvas e mais simples pra quem mora aqui fora.
Hoje concluia que gostava do cinza, e que a cor combinava consigo de uma forma simbiótica, no entanto, a despeito do que acreditava, definitivamente não era a chuva e a instabilidade do tempo que o deixavam triste, sentir a onda da calma, o sono da penumbra e a quietude da ausência de sol, eram traços de momentos que não escolhia, que como sentimento dissolvido, se misturavam a uma receita sem medida, começo e fim, e a uma energia dissipada singela.
Estava satisfeito pela refeição, e estranho pelo sentimento, de uma ausência tentada e finalmente conquista, no entanto por uma presença não entendida nem que se pretendeu. Espaço vazio e ocupado, buraco aberto e preenchido, ferida exposta e cicatrizada, amor e carinho, orgulho e satisfação, saudade e dor.
Tarde
22 de outubro de 2008
Eu quero férias, no entanto umas férias diferentes das que sempre tive. Eu quero um tempo que seja novo, e que não represente tudo que sempre foi. Eu quero um ser que não seja dever. Eu quero viver o inédito, eu quero voltar pra reescrever, eu quero a música que me faz gritar, a lembrança que me traz dor, eu quero a lágrima por escorrer, eu quero o machucado que ensina, eu quero reconstrução, e eu estou escrevendo em primeira pessoa.
Eu quero mandar os e-mails que começo e não termino, e quero terminar de escrevê-los também, eu quero a companhia que procuro e preciso - que talvez seja a de mim mesmo-, eu quero parar de idealizar em demasia, quero parar de me emplogar sem motivo, eu quero para de sorrir porque às vezes consigo gostar de mim, eu quero parar de implodir dia sim dia não, quero parar de ter vontade de falar, parar de ter vontade de pensar, parar de ter vontade de compartilhar, de sentir, de repartir, de oferecer, de entregar, de sentir, de viver o eu.
E eu não quero mais deixar de ser, eu quero ser com paz, tranquilidade, eu quero acertar nas frases, nos olhares, eu quero acertar no porte, corresponder a espera, ser útil, agradável, eu quero não o que parece, eu quero eu e um você, eu quero as amizades que conquistei, e quero saber mantê-las, eu quero preencher o que precisarem, eu quero parar a gangorra que me comanda, que me habita, eu quero fim do duelo, quero sossego do sentimento, quero uma razão que não seja angústia como sempre era, a velha fórmula de culpar e sufocar pode não deixar acontecer, porém é como suicídio, é envenenar, é auto-flagelação. Não, eu não sei o que quero, talvez só o que eu saiba é que eu não quero mais confusão, eu quero um tempo de mim, dos meus conflitos, dos meus desequilíbrios, das minhas características, do que me faz eu, dos meus sonhos, dos meus desejos, das minhas vontades, das minhas idealizações, que quero o divórcio -nem que seja temporário- dessa esperança que me domina, dessa expectativa que me faz caminhar, que me comanda e que sempre morre e renasce mais forte.
Eu quero o vento que refrigera, a corrente que paralisa, eu quero a gase que estanca, eu quero um coração diferente, eu quero um eu que me obedeça, que me entenda, que me ajude. Eu quero um socorro que transforme, eu não quero mais a euforia num dia, e a angústia que entristece e me prende no outro, eu quero uma vida que eu nunca tive e eu não quero mais a solidão, mesmo que aquela acompanhada de sempre. Eu não quero mais a solidão como corretivo, na entanto tampouco quero continuar assim nessa premente espera tola e imbecil, de uma manhã adolescente não-vivida, de um tempo que amputei. Eu quero a experiência do que não tive, e quero agora, porque talvez só ela cure essa pressa, essa urgência, esse impulso juvenil de querer, de entender, de sentir a experiência do que pode ser felicidade.
Nitidez
17 de outubro de 2008

Revolta, conversa, diálogo, apresentação, convite, reação, sentimentos, interesse, união, manobra, democracia, estopim, explosão, guerra, palavras, bombas, confusão, discussão, correria, pavor, confusão, indignação, tenatativa, explicação, sentimento, coração, entrega, verdade, mentira, grito, pedido, súplica, sonho, idealização, descontrole, voz alta, garra, força, sem controle, revolta por ter revolta, dúvida, dor, imersão, imensidão, razão, canção, entrega, silêncio, calar, contornar , errar, acertar, sofrer, destino, marcar, não-omitir, não saber, tentar, descontruir, descotinar, enfrentar, hormônio, sonho, inocência, tensão, juventude, ímpeto, revolução, volta! Passado, presente, diferente, chuva, azul, molhado, carta, tristeza, vontade, fazer de novo, mudar, lágrima, perturbação, encruzilhada, aprender, tudo, nada, socorro, berro, ajoelhar, espalmar, bater, implodir, enterrar, olho, voz, medo, saber, exprimir.
!?
8 de outubro de 2008
...Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar.Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar...
Clarice Lispector
Andar
2 de outubro de 2008
“E quando me dizias, meio tonto, que a solidão te comovia e te chamava, eu comecei a gritar por dentro, e só conseguia silenciar e implodir. E se eu dissesse tudo o que eu queria ao mesmo tempo que silenciasse na tua solidão, talvez eu conseguisse um pouco mais de paz, essa paz tão caótica a que tu sempre aspiraste. Mas não, eu só consegui fugir, fugir, fugir, correr o tempo todo de mim, o mais rápido que a minha lentidão podia e eu não podia, não podia correr dos teus olhos, do cheiro de pele, do choro da pele. ‘Acreditar na existência dourada do sol, mesmo que em plena boca nos bata o açoite contínuo da noite. Arrebentar a corrente que envolve o amanhã, despertar as espadas, varrer as esfinges das encruzilhadas’. Eu só podia permanecer ali, naquele banco sob os galhos cujas folhas já caíram há tempos, balbuciando o que eu não compreendia. ‘Todo esse tempo foi igual a dormir no navio, sem fazer movimento, mas descendo o fio da água e do vento’. Se a gente ainda tivesse nascido pela metade, como dizem, mas somos inteiros, eu era inteira: por que me partiste em cacos assim? Acho que vai começar a chover, eu sinto o cheiro da chuva. Me diz, o que eu faço agora? Hein? Agora que a tua solidão te chamou e preferiste qualquer resto de coisa a mim, o que eu faço agora? O que eu faço agora com todas as minhas vontades de nós, com todos os meus nós, com todas as minhas vontades? E o meu amor? O que eu faço do meu amor? Deixo a chuva levar, jogo fora enquanto estiver correndo e eu já corri tanto, meu amor. E o que eu somo à minha metade pra fazê-la inteira de novo? "Já não há mais moinhos como os de antigamente"
"O cavaleiro e os moinhos - Elis Regina"
"O cavaleiro e os moinhos - Elis Regina"
By M.L.R.C
30 de setembro de 2008
29/08/2008
Legenda:
Sinto que é como se meu coração estivesse sendo enrolado por um fio de nylon: fino, frio,
tecnologicamente preparado para prender e recortar.
Um fio que vai envolvendo meu coração e vai apertando-o,
vai sufucando, impedindo-o de pulsar,
e cada vez mais, eu tento fazer meu coração mais forte,
por que o fio vai fazendo mais pressão; mas não consigo, e tenho a impressão que meu coração vai se desintegrar em pedaços,
e me rendo ao nylon; e dói, muito,
e é por isso que grito por dentro, é isso que sinto,
queria voltar pra não deixar nunca meu coração ser amarrado por um fio de nylon.
É impossível voltar, não consigo, por fim preciso cortar a linha antes que meu coração páre de bater, e tenho de fazê-lo sem o machucar ainda mais, o mais difícil de tudo.
Do curta Ilha das Flores, a máxima:
"Recordar é viver"
Sinto que é como se meu coração estivesse sendo enrolado por um fio de nylon: fino, frio,
tecnologicamente preparado para prender e recortar.
Um fio que vai envolvendo meu coração e vai apertando-o,
vai sufucando, impedindo-o de pulsar,
e cada vez mais, eu tento fazer meu coração mais forte,
por que o fio vai fazendo mais pressão; mas não consigo, e tenho a impressão que meu coração vai se desintegrar em pedaços,
e me rendo ao nylon; e dói, muito,
e é por isso que grito por dentro, é isso que sinto,
queria voltar pra não deixar nunca meu coração ser amarrado por um fio de nylon.
É impossível voltar, não consigo, por fim preciso cortar a linha antes que meu coração páre de bater, e tenho de fazê-lo sem o machucar ainda mais, o mais difícil de tudo.
Do curta Ilha das Flores, a máxima:
"Recordar é viver"
Título: Espaço
25 de setembro de 2008
24 de setembro de 2008
11/09/2008
Título:
Tempestade
Legenda:
"Em certas ocasiões,
o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia,
cujo curso sempre se altera.
Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção.
Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue.
Você muda mais uma vez o seu rumo.
A tempestade faz o mesmo e o acompanha.
As mudanças se repetem muitas e muitas vezes,
como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer.
Isso acontece porque a tempestade não é algo independente,
vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo.
Algo que existe no seu íntimo.
Portanto, o único recurso que lhe resta é se conformar
e corajosamente pôr um pé dentro dela,
tapar os olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia
e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado.
É muito provável que lá dentro não haja sol, nem lua,
nem norte e, em determinados momentos, nem hora certa.
O que há são apenas grãos de areia finos e brancos como
osso moído dançando vertiginosamente no espaço.
Imagine uma tempestade de areia desse jeito.
...
E você vai atravessá-la, claro.
Falo da tempestade.
Dessa tempestade violenta, metafísica e simbólica.
Metafísica e simbólica, mas ao mesmo tempo cortante como mil navalhas,
ela rasga a carne sem piedade.
Muita gente verteu sangue dentro dela,
e você mesmo verterá o seu. Sangue rubro e morno.
E você vai apará-lo com suas próprias mãos em concha.
O seu sangue e também o de outras pessoas.
E, quando a tempestade passar,
na certa lhe será difícil entender como conseguiu atravessá-la e ainda sobreviver.
Aliás, nem saberá com certeza se ela realmente passou.
Uma coisa porém é certa: ao emergir do outro lado da tempestade,
você já não será o mesmo de quando nela entrou.
Exatamente, esse é o sentido da tempestade de areia."
(Kafka à beira-mar, Haruki Murakami. pg. 7~8)
Título:
Tempestade
Legenda:
"Em certas ocasiões,
o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia,
cujo curso sempre se altera.
Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção.
Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue.
Você muda mais uma vez o seu rumo.
A tempestade faz o mesmo e o acompanha.
As mudanças se repetem muitas e muitas vezes,
como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer.
Isso acontece porque a tempestade não é algo independente,
vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo.
Algo que existe no seu íntimo.
Portanto, o único recurso que lhe resta é se conformar
e corajosamente pôr um pé dentro dela,
tapar os olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia
e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado.
É muito provável que lá dentro não haja sol, nem lua,
nem norte e, em determinados momentos, nem hora certa.
O que há são apenas grãos de areia finos e brancos como
osso moído dançando vertiginosamente no espaço.
Imagine uma tempestade de areia desse jeito.
...
E você vai atravessá-la, claro.
Falo da tempestade.
Dessa tempestade violenta, metafísica e simbólica.
Metafísica e simbólica, mas ao mesmo tempo cortante como mil navalhas,
ela rasga a carne sem piedade.
Muita gente verteu sangue dentro dela,
e você mesmo verterá o seu. Sangue rubro e morno.
E você vai apará-lo com suas próprias mãos em concha.
O seu sangue e também o de outras pessoas.
E, quando a tempestade passar,
na certa lhe será difícil entender como conseguiu atravessá-la e ainda sobreviver.
Aliás, nem saberá com certeza se ela realmente passou.
Uma coisa porém é certa: ao emergir do outro lado da tempestade,
você já não será o mesmo de quando nela entrou.
Exatamente, esse é o sentido da tempestade de areia."
(Kafka à beira-mar, Haruki Murakami. pg. 7~8)
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