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11 de julho de 2010
Eram centenas e rasgavam o céu como fogo em seda. Eram trilhões e pulverizavam tudo como ácido na pele. Eram dezenas de ondas multiformáticas e densas que irrompiam do céu acima e desciam em cascata como se numa cachoeira de insanidades. Loucura verde que esganava a verdade que não resistia e lhe escorria pelas mãos como sabonete molhado. E tinha alguma coisa parecida com aquela fruta desgostosa e mal-cheirando que inunda a geladeira, daquelas que não se limpam com a frequência que deveriam. Incontáveis segundos o repartiam em mil porque já não há mais passado no presente e aquilo que restou é tão condecorativo que as medalhas e homenagens de sobrevivência recebidas lhe conferiam um caráter rebuscadamente intrigante. Com a pretensão de quem parece apurar em si o que há de interessante, ele, sentado sobre quatro cadeiras brancas encaixadas sentia o deixar-se tomar por aquele tipo de domínio animal e primitivo e doentio de quem se entrega ao mal que nem sempre nós mesmos criamos; porque não somos ímpares. Eu pelo menos tenho certeza que não. E tinha uns infinitos pedaços de nuvens naquele céu que entardecia e eternizava como um traço no coração dele agora.
15 de fevereiro de 2010
Eu queria deixar dito que apesar desse céu parecer meio misturado e entardecido, que chove lá fora agora. Eu demorei bastante tempo pra conseguir digerir o que estava escrito naquelas ondas, sempre esteve escancarado nas linhas brancas da espuma aquelas coisas que eu precisava fazer pra poder sair da chuva, e eu sempre fingia que não sabia ler, que não entendia nada. Hoje tem uns pingos gelado caindo do céu e eu acho que eles acabaram me fazendo ler de novo, eu cansei de fingir que não sei ler, eu cansei de tentar ficar na água, porque eu não posso mais ficar molhado. E existe sempre alguma coisa suspensa, e é como quando você precisa sair da água, e tá frio lá fora, porque já é fim de tarde e o sol já não aquece nem seca mais quem ousou mergulhar, e você ficou tempo demais submerso, está todo enrugado, e com fome, e agora é chegada a hora de sentir o vento gelado e a brisa intensa daquela praia preferida que foi teu refúgio por um longo tempo mas que não pode ser pra sempre. E eu acho que eu sou todas aquelas ondas contra as quais lutei,e eu queria que você soubesse que aquele dia eu não entrei na água porque eu precisava começar aquele caminho longe de ti que hoje me liberta. E mesmo que algum dia você venha a saber; ou não, eu sei que como eu não há.
13 de dezembro de 2009
Era mais ou menos como esse dia nascendo. Só que mais especial. Tinha a intensidade desse sol que manda embora aquela treva sem fim e repetente. Tinha uma fragrância escondida como esse ar fresco e gelado do amanhecer. E teve um momento que eu achei que não podia ser. Que todas as imagens, as sensações e os toques eram de mentira, alucinações da minha fantasiosa e irriquieta mente. Não eram. Irrompiam pelo espaço todo as músicas mais intensas e a magia não cessava. Era uma espécie de encanto consentido, sincronia perfeita, sintonia fina, equação completamente equilibrada. E eu equilibrei aquele corpo algumas vezes porque parecia que a gente era par. Logo eu que sempre achei que era ímpar. E o canto dos pássaros aqui na janela me impede de fechar os olhos e sonhar. Aquele medo derradeiro de adormecer e acordar encarando que tudo não possa ter passado de sonho é algo incrustado, arraigado, que me pergola intermitente. Só que hoje parece que o medo se esvaiu, partiu, seguiu rumo pra algum lugar que não me habita. Minha denúncia é minha face e nunca me senti tão orgulhoso por ser incriminado. Eu acho que quando a gente se entrega tem uma espécie de liberdade única, é um exercício de coragem, respeito e prazer, tudo amalgamado e imbricado junto. É algo da ordem do inenarrável, do indescritível e do inominável. Não foi só macio, e agora um sorriso me esboça a face, foi gostoso, pra caralho. A mágica do poeta gaúcho não me deixa esquecer que os figos são flores que abrem pra dentro.Só posso afirmar que foi lindo e que ele tem razão, em tudo e sobre as flores, principalmente.
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