27 de abril de 2012
10 de julho de 2011
12 de agosto de 2009
Eu pensei em vários começos diferentes e tenho várias frases soltas que mais parecem aquele quebra-cabeças insolúvel dos tempos da escola porque alguém sempre perdia uma peça. Eu faço gosto de dizer que esse texto mais parece uma colcha de alguma coisa que é mais do que retalhos porém eu não sei bem do que esse proto-mosaico é feito. E como naquele pôr-do-sol lá do norte mais longínquo e da ponta do fim da terra, e como aquela noite em que você me atrelou à minha pena, ou em que você partiu meu coração por não ter olhado pra fora, ou em que você foi a pessoa mais corajosa do mundo ou em que você foi um sonho materializado em vida. Pra você eu queria dizer que eu te amei como nunca mais acho que vou gostar de ninguém, toda vez que te vejo tenho vontade de te dizer que te acho super especial e tenho vontade de te pedir um abraço. Pra você quero dizer que eu gosto tanto de ti e de uma forma tão paradoxal, que eu desisti de decifrar o porquê e o quê você representa pra mim. Pra você eu quero dizer que foi muito bom a gente ter se descoberto e ter vivido uma etapa tão nova e bonita, e eu sei que talvez você nunca entenda mas eu me sinto em paz comigo por ter me respeitado quando eu achei que era hora. E pra você que talvez nunca leia isso, eu queria dizer que às vezes quando você perde, você ganha. E que eu queria que você soubesse que você foi aquele irmão que a vida me deu e que apesar de isso parecer ser a mais batida das expressões só a franqueza da simplicidade desnuda o que pode ter se operado por ti. E eu queria que você soubesse que nada mais importa além de que acreditar nos sonhos é fazer a vida valer a pena. Hoje eu queria que você soubesse que é como quando você mergulha na água e não sabia da temperatura nem da profundidade, e que só quando a gente se legenda sem anteparos a gente se enxerga no espelho. Só o tempo conseguiu me dizer da verdade, e aquela brisa rosada nunca mais vai me deixar esquecer que a imperfeição é minha sina e que estou inevitavelmente condenado à vida.
5 de julho de 2009

É como a foto antiga que envelhece, e amarela, perde a intensidade de cada cor mas não se apaga. E são como as pétalas da rosa mais vermelha que desbotam e caem pelo chão, e apesar de todo o tempo do mundo, e de todas as intempéries, continuam vermelhas e perfumadas. E agora é tão inverno quanto antigamente e eu me lembro daquele tempo em que a gente convivia por conveniência ou destino e eu ainda me lembro daquela enigmática sensação que você sempre provocou em mim, eu lembro das muitas tardes, e manhãs, e de todos os dias em que lutei pela tua volta nos meus dias, porque era tão longe e tão difícil e improvável te fazer voltar pra dentro dela, e tudo me separava de você porque você era como aquele caule cheio de espinhos que me feriria se eu tentasse te tocar,e nossos mundos se desencontravam, e eu tive que operar meus esforços através da história, e o acaso acabou por aprimorar meus passos e aquelas velhas fotos passaram a ser passado do nosso presente porque novos retratos foram sendo tirados e ai você voltava a colorir o cinza do meu presente e você estava ainda mais marcado no meu sentir, mesmo sem nunca ter sabido disso, porque aquele enigmático sentimento que você me causava e aquela sensação que percorria meu corpo inteiro quando eu estava com você se reiteravam e então quando eu abri meus olhos, e olhei pra fora naquela hora, eu percebi que durante todos os longos anos em que eu lutei por você, por mim, e por aquele passado que me insistia em dizer que não era só definitividade do tempo, naquele dia daquela noite qualquer em que eu deitei e olhei pro teto, como nas primeiras vezes em que você voltava pra cena da minha vida, eu percebi que talvez eu sempre gostei mais de você do que eu deveria, e como naquele tempo isso não podia ter nome, e talvez não tinha, você me fazia ir da admiração ao ódio, do amor à raiva e a todos os extremos do não entendimento, e toda a fixação que eu tinha por você se explica quando eu percebo sem anteparo algum que você foi aquela pessoa que colocou a semente dentro da terra, e depois dela germinar partiu, e eu sofri pra crescer e lutei pra não morrer diversas vezes, porque no fundo eu queria acreditar que um dia você ia voltar pra perto de mim e a gente ia construir aquela história, que a gente construiu, e que com todos os espinhos, as pétalas, o frio, as cores, as noites, o vento, e as palavras de todos aqueles verões e invernos, que um dia quem sabe eu ia me encontrar com você, e por isso quando eu entendi o que eu sentia por ti eu acabei sendo como aquela árvore que perde todas as suas folhas no outono, e uma a uma elas foram caindo e me vi descendo com o vento e logo o chão nos meus pés estava amarelado e eu estava desnudo como todos aqueles galhos que já não escondem mais a luz do sol e o céu azul, e era por isso que eu queria que você tivesse olhado pra fora naquela hora, porque tudo que eu sentia você tinha se acendido e eu não conseguia mais esconder, e eu me sentia inebriadamente compelido a impedir e a querer ao mesmo tempo que a nossa foto nova, daquele presente de sonho, tivesse toda a intensidade, a força, e o brilho marcante que um retrato e uma lembrança únicos podem ter.
28 de maio de 2009

É a maior morte estelar que vou ter que viver. É a plêiade mais cintilante e singular que vou ter de abandonar porque já não consigo mais conviver com sua luz e porque ela me ofusca tanto, e me cega, e me perturba ao ponto de eu perder todas as direções, e todos os sentidos . E por eu não querer mais me sedimentar devido a força da sua luz, e de toda a sua perfeição, que eu me despeço do céu da noite, daquela estrela mais brilhante porque não tenho mais tenacidade, nem força nem nada do que se aproxime ao que já me sustentou, porque aquele brilho é tão intenso e devastador que todas as minhas bases e meus fundamentos foram incinerados e depois o que não foi consumido pelo fogo foi pulverizado pelo choque que sinto com a realidade quando estou perto de você. Eu preciso deixar de olhar pro céu porque a intangibilidade, tanto da perfeição quanto do sentimento são verdades que me desmantelam e me desconstroem. E é como quando uma onda no fim do dia chega firme e leva embora o castelo mais alto e mais pleno da praia porque uma hora ou outra ele voltaria a ser só areia e é função, indissociável, do tempo, levar tudo aquilo que não pode ser pra sempre embora. E esse é aquele em que sucumbo, me curvo, e me rendo ao brilho e a força de tua luz, porque já não consigo mais sobreviver sob tal intensidade e porque preciso voltar a ser, com a urgência de quem luta pela própria vida, aquele pedaço de uma constelação menor na busca pelo avançar do tempo, pra que um dia, eu possa vir a ser, então, tão especial e perfeito como todas aquelas jóias ímpares do firmamento.
18 de março de 2009

Esse é aquele em que ele tem certeza e que diz tudo o que acha que quer dizer. Tudo era silêncio e barulho. Ele estava em pé, dançando, parado, a música ritmada com o movimento do seu peito, as notas enchiam o ar escuro, não havia noção de tempo, seus braços abertos, os flashes que desnudavam, pontuais, flagravam seu ensaio não tão solitário, o gelo seco impregnava o ambiente, misturando-se. Naquele momento todas as pressões cessavam, arrefeciam, calavam-se, e só restava a ele escutar. Não havia nenhuma presença, as portas estavam todas fechadas, lacradas, impenetráveis. A sensação era a de um viveiro hermeticamente vedado embebido em noite e voz. A busca pelo imaterial consumiu cada movimento e passo e a presença invertida do que sentia percorria cada centímetro de sua alma. E ela pulsava latente, cinza, viva. Escolha pelo que se acredita que é o melhor, conquista do que se acredita que é bom. E a história repetia-se novamente, interiorizando no âmago uma ordem que jazia agora sem lei. Seus sentidos cegados pelas indicações, parciais, montadas, jogadas, dúbias, convenientes, mecânicas, frias, insanas, premeditadas por uma genialidade que se pretende a invulnerabilidade. Que se pretende. Fortaleza que era alvo do mais contraditório ataque, página da batalha invertida. As canetas que deveriam acompanhar-se na redação da história não pareciam escrever o que deveria ser escrito. Faltava tinta, afeto. Faltava verdade. A instrumentalização da vida lhe embebia de pavor e perplexidade. O interesse, unívoco, unilateral, da singularidade, retroagia no tempo como um espelho frente ao outro. Os olhos estavam abertos agora, e seus braços continuavam esticados, fluindo, no escuro, com os mesmos flashes, pontuais, e a névoa branca invisível o engolfava. Pouco a pouco o tempo lavava a alma tingida, e a canção que dividia a imagem, descolorindo caminhos, chegaria ao fim, terminando por revelar o que restaria de suas certezas, manchadas.
9 de novembro de 2008

Quero trazer cada lembrança à tona. Quero lembrar cada dor, cada medo, cada inveja, cada ódio, cada rancor, cada briga, cada desejo de vingança. Quero recordar cada dia triste, cada vontade de morrer, quero reassistir cada derrota, cada falha, cada queda que me fraturou, quero rememorar cada pavor, cada pânico, cada susto, cada palavra que me cortou e fez escorrer. Quero ver aqueles dias de espera, de dúvida e aqueles anos de angústia de novo. Eu quero mexer em cada fato mal acabado, em cada memória mal assentada, em cada palavra escrita mas não entregue, em cada palavra barrada e não dita, em cada censura-tortura, em cada desejo-pena, em cada sonho-mola, em cada dia de humilhação gratuita e não respondida. Eu quero, lembrar, recordar, reassitir, rememorar, eu quero ver tudo novamente, eu quero lembrar de cada dia, eu quero reviver todos os anos, os meses, ser inteiro como aquele garoto da terceira-série, onde no cavalu um mais nove mais nove mais oito eram vinte e sete, quando pão-de-queijo era pão-de-ló e chá era refrigerante, onde casebre era mansão, onde espera era existência, fé-esperança, bombom um luxo, requinte puro e sofisticação.
2 de novembro de 2008
1 de novembro de 2008
É parcial.Ele sentiu nojo deles hoje, uma raiva boa, quando caminhando sozinho como ele é e sempre fora, viu por alguns instantes o ex-amor, junto com pessoas as quais ele sempre quisera gostar, e naquele momento a razão concedeu certeza de que apesar de tudo de bom que ele havia feito pra ele, havia muito proeminente o mal, a forma com que fora tratado mal, com que agiram mal, e que tinham impropriedades muito salientes -sempre tiveram-, porém nunca pelo sentimento avassalador de antes, ele conseguia perceber, tatear, sentir, e principalmente permitir perceber como era.
A forma com que agiram com ele era a de um vento que soprando machucava e ele anestesiado (in)voluntariamente pelo sentimento não se fazia perceber.
Conseguiu uma liberdade nova. E estava germinando uma semente nova. Num terreno que sempre foi novo. E que continuava sendo. Encarar a si mesmo tinha sido uma aventura que ele nunca aceitou. E até o nunca sempre acaba.
Como o pra sempre que não existe e que ele acredita que pode existir, ele aceitou o desafio e mergulhou, foi muito fundo, tão longe e escuro e gelado que parecia por fim, ter tocado o solo submarino.
E a areia era fina, e fria, e pálida. E ele pode sentir a âncora, inteira, gigante, chumbo escuro, pesando, e estava como que se definindo, aquelas correntes natas, pretéritas, firmadas pelo tempo, que tinham raízes umbilicais com o firmamento ao avesso, estavam ao seu alcance.
Ele tinha ganhado um instrumento que nunca teve, e graças ao apoio ele chegou no fundo, e conseguiu perceber os traços, as cores, e se colocou permitindo a sentir.
Ele não tinha a mínima idéia do que fazer agora.
Não tinha caminho.Não sabia da chave, nem do instrumento, tampouco da capacidade e da força necessárias pra romper o céu que era ele e o englobara, sempre. Haveria um cadeado ou era orgânico, a âncora era parte indivisível, indissociável?
Um firmamento liberdade-prisão, uma ajuda parcial-cooperada, uma interrogação franca e sincera. A batalha ímpar dele. E a memória de um sol nunca visto, a lembrança de um calor nunca sentido. O reservatório de tristeza, que em lágrimas ainda não choradas, espera por se abrir. Como dique, vertente, rio, córrego, riacho, cachoeira, verão verde, gelatina fluida, libertação. Medo da dor que sempre (im)pediu a vida. Dor da tristeza. Tristeza da dor. Semente.

Poucas palavras. Pequenos entendimentos tramados numa codificação indecifrável.
Grandes baques reais, confrontos adiados, remediados, postergados até o limiar do possível.
Encontro ímpar.
Sentimento que eclode.
Entendimento que introspecta.
Necessidade, premência em seguir.
Síntese: começar.
Vácuo, vazio, nada.
Medo, angústia da vida.
Tristeza do tamanho do céu.
Foi o dia das bruxas de 2008.
25 de outubro de 2008

http://www.youtube.com/watch?v=RUwri5brAEY
Hear Me Out
Frou Frou
I join the queue on your answer phone
And all I am is holding breath
Just pick up I know you're there
Can't you hear?
I'm not myself
Well, go ahead and lie to me
You could say anything
Small talk will be just fine
Your voice is everything
We owe it to love
And it all depends on you
So listen up
The sun hasn't set
(I refuse to believe that it's only me feeling)
Just hear me out
I'm not over you yet
(It's love on the line, can you handle it?)
So how do I do normal?
A smile I fake
the "per-ma-nent-way"
cue-cards and fix-it kits
Can't you tell?
I'm not myself
I'm a slow motion accident
Lost in coffee rings and fingerprints
I don't wanna feel anything but I do
And it all comes back to you
So listen up
"This" sun hasn't set
(I refuse to believe that it's only me feeling)
Just hear me out
I'm not over you yet
(It's love on the line, can you handle it?)
Hear me out
Listen up
This time you gotta listen to me - yeah
Look at me straight
Just hear me out
Don't make me wait
I'm not myself
I can't take this
Love's on the line
Is that your final answer?
I join the queue on your answer phone
And all I am is holding breath
Just pick up, I know you're there...
So listen up
"This" sun hasn't set
(I refuse to believe that it's only me feeling)
Just hear me out
I'm not over you yet
(It's love on the line, can you handle it?)
(repeats two more times after this and fades)
Será?
24 de outubro de 2008

as pontes que precisarás passar,
para atravessar o rio da vida
- ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números,
e pontes, e semideuses que se oferecerão
para levar-te além do rio;
mas isso te custaria a tua própria pessoa;
tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho
por onde só tu podes passar.
Onde leva? Não perguntes, segue-o. "
(Nietzsche)
21 de outubro de 2008
24 de setembro de 2008
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Drummond de Andrade
Título:
Tempestade
Legenda:
"Em certas ocasiões,
o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia,
cujo curso sempre se altera.
Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção.
Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue.
Você muda mais uma vez o seu rumo.
A tempestade faz o mesmo e o acompanha.
As mudanças se repetem muitas e muitas vezes,
como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer.
Isso acontece porque a tempestade não é algo independente,
vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo.
Algo que existe no seu íntimo.
Portanto, o único recurso que lhe resta é se conformar
e corajosamente pôr um pé dentro dela,
tapar os olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia
e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado.
É muito provável que lá dentro não haja sol, nem lua,
nem norte e, em determinados momentos, nem hora certa.
O que há são apenas grãos de areia finos e brancos como
osso moído dançando vertiginosamente no espaço.
Imagine uma tempestade de areia desse jeito.
...
E você vai atravessá-la, claro.
Falo da tempestade.
Dessa tempestade violenta, metafísica e simbólica.
Metafísica e simbólica, mas ao mesmo tempo cortante como mil navalhas,
ela rasga a carne sem piedade.
Muita gente verteu sangue dentro dela,
e você mesmo verterá o seu. Sangue rubro e morno.
E você vai apará-lo com suas próprias mãos em concha.
O seu sangue e também o de outras pessoas.
E, quando a tempestade passar,
na certa lhe será difícil entender como conseguiu atravessá-la e ainda sobreviver.
Aliás, nem saberá com certeza se ela realmente passou.
Uma coisa porém é certa: ao emergir do outro lado da tempestade,
você já não será o mesmo de quando nela entrou.
Exatamente, esse é o sentido da tempestade de areia."
(Kafka à beira-mar, Haruki Murakami. pg. 7~8)




