3 de abril de 2009

Esse é aquele em que o espaço se encheu de certeza. Eu queria que você soubesse, mesmo sem poder agora, que você está chegando. Eu tenho convicção, plena, que você está a caminho. E eu não tenho essa segurança toda, mas eu acho que eu já posso ter te visto, não sei, tava meio escuro lá, e eu não distingui se teu olho era claro ou escuro, eu não conseguia olhar pra você por muito tempo, e acho que você também não. Eu queria que você soubesse que você mexeu comigo, e foi doce. Eu não imaginava ninguém, com os pés no chão, pra mim, há tempos. E eu me vi com você, e eu queria muito que você soubesse disso agora. Quando você chegar e puder ler você vai perceber como esse dia foi especial. Eu queria que a gente tivesse trocado mais que aquele sorriso escondido e aquele olhar censurado. Eu ia pedir o teu nome. Até imaginei uma lista, pequena, sei que parece bobagem, mas que parece combinar tanto contigo. Eu queria que você soubesse que o que eu achava que faltava não era falta: é excesso. Eu acho que você me fez encontrar o que eu tava procurando sem saber querer. Eu percebi que está extravasando ao invés de faltar. A ausência que eu percebia não era falta, é presença, invertida. Eu queria que você soubesse que eu preciso dessa troca. Como nunca. Como sempre. Eu quero te dizer que eu vou encurtar o caminho, que eu vou sair mais cedo e que eu vou tomar todas as medidas, impossíveis e possiveis pra chegar mais perto, eu até vou ao teu encontro, não sei como, mas eu vou buscar essa coragem no fim do mundo se eu puder. Então vem. E vem depressa, porque eu tenho tanto, de tudo, que eu sei que é aquilo que você também quer e não encontra, ou que busca mais não vê onde pode achar. Eu queria que voce soubesse que eu senti você perto de mim. E foi bom. Eu acabei esbarrando em você sem querer querendo e é por isso aque a gente precisa se achar. Quando você sentir que for a hora levanta e me olha, na alma, e eu vou saber que é você, porque nesse momento eu também vou estar te vendo, e eu vou enxergar os teus olhos de perto e então, finalmente, vou poder saber se eles são claros ou escuros. Eu acho que são escuros.

26 de março de 2009



Eu queria que você soubesse que esse texto foi escrito depois de uma sessão de cinema do dia 26 de março de 2009. E eu queria te dizer que você foi o meu primeiro melhor amigo de verdade. Eu já tinha tido outros amigos, pessoas com quem me dividia, por quem lutava, pessoas com as quais eu planejava meus sonhos e compartilhava as minhas idéias, no entanto, com nenhuma delas eu podia ter sido eu, e contigo eu pude. Eu queria que você soubesse que você é uma das pessoas mais fantásticas que eu conheci em toda a minha vida. Eu agradeço a deus ou ao que quer que seja que rege as nossas vidas sempre que me lembro que um dia eu já pude falar com você, eu agradeço por ter tido a oportunidade e a chance de ter sido teu amigo. Quando eu olho pra todos esse meses desse mais de um ano de convívio eu vejo sonho realizado, vida e felicidade. Porque? Porque você me deu a esperança, real, de que um dia eu poderia vir a ser feliz. E eu queria te lembrar que isso não é idolatria, nem nada do gênero, isso é sinceridade, sentimento e verdade, porque você também me ensinou o que é ter um coração bom, qual é o valor do caráter e porque devemos ter princípios. Eu queria que você soubesse ainda que eu teria milhares de frases e palavras e coisas pra te dizer, pra ressaltar, adjetivar, consubstanciar, porém não precisa. Você já sabe tudo que eu vou dizer. Eu desejo pra você toda a felicidade do mundo. Eu não sei aonde você vai morar, com quem você vai estar ou que você vai ser. Eu não sei qual é o teu futuro, se é em São Paulo, Brasília ou Nova York. Mas não importa onde , como e com quem. Eu queria que você soubesse que foi você quem me ensinou que algumas coisas são pra sempre. Eu sempre vou te admirar, vou torcer por você, vou ser o teu maior fã. Cara, eu não sou teu pai, nem teu irmão, muito menos teu parente, mas eu queria, por fim, que você soubesse, que eu morro de Orgulho de você. Obrigado por ser meu eterno maior exemplo. (e por tudo que você sempre fez por mim)
Do teu pra sempre amigo,

22 de março de 2009

Eu quero te dizer obrigado. E quero te dizer também que eu tenho algumas perguntas. Eu queria que você soubesse que o meu maior desejo, nesse exato instante, era estar na tua frente, face a face. Eu queria poder te dizer cada interrogação e eu queria que todas, todas as palavras sem excessão fossem ditas. Eu queria experimentar essa experiência mútua, bilateral, sincrônica, sincrética, amalgamada, de poder olhar nos teus olhos ouvindo a tua voz, e eu queria conversar contigo sobre absolutamente tudo que eu tenho vontade, e que queria que você me respondesse de peito aberto, com afeto, amizade, confiança, lealdade, atenção, eu queria que a gente pudesse trocar nossos sonhos e nossos sentimentos de verdade. Eu não sei se você sabe mas eu sempre gostei de você. Eu gosto de você porque você é uma pessoa especial. Eu tenho memórias, lembranças, imagens, cenas, fotografia, passado. Eu queria muito que você fizesse parte da minha vida, e você faz. No entanto porque a gente está nessa encruzilhada é uma pergunta que me desceu hoje inteira. Eu acho que quando a gente gosta de alguém, de verdade, não existe lado. Existe a gente. Amizade é amor por que a gente vibra, torce, vive, sorri, discute, conversa com o outro. Amizade é parceria, não competição. Amizade é contato, bem-estar, paz, amor. Amizade é liberdade. É a qualidade de poder ser quem se é com o outro. Eu queria muito que você soubesse que você me ensinou muitas coisas, boas e ruins. Eu queria que você soubesse que se eu pudesse voltar atrás eu teria reescrito muita coisa, e não tenho medo de dizer isso, eu teria voltado anos atrás e teria feito muita coisa de outra forma. Isso, porém, não existe. E o que há, é esse exato minuto, em que eu quero que você saiba que esse é aquele em que eu abri todas as portas do meu coração e da minha alma, e é aqui, despido de todo o manto de sentimentos e ímpetos que me revestem que eu te digo: eu queria que só existisse o nosso lado. Nem meu, nem teu, nem dele. Só o nosso. E que a gente pudesse seguir junto, até onde a vida nos permitisse, porque a gente tem muito pra viver e pra conquistar. E eu só quero ser feliz, fazendo quem eu gosto também. Porque eu acredito, de todo meu coração, que isso é viver.

20 de março de 2009



Esse é aquele em que ele precisa deixar as palavras sairem, já que não podem de outra forma. A distância faz da percepção uma qualidade mutante. O espaço transforma a impressão, acentua o sentido, faz da ausência a presença invertida eterna da qual somos pacientes. Ele não sabia o que escrever, não sabia o que dizer, que palavras pronunciar. Porque a complexidade das pessoas às vezes era de uma demasiedade intragavel, inabsorvível, inassimilável. Ele queria que as coisas fossem mais simples, mais claras, mais sinceras e verdadeiras. Ele queria dizer que as coisas não precisavam ter que ser assim. Pessoas não são objetos, brinquedos, peças de um jogo de montar. Naquela manhã tudo tinha sido tão perfeito e tão brilhante que o tempo poderia ter congelado e se perpetuado sempre assim. Não que não devesse cruzar a linha cronológica arrastando e levando as coisas e remodelando, tudo, num ritmo novo e intenso. Ele queria dizer que esperava ,sim , o melhor das pessoas. Ele queria dizer que acha que afeto existe, que lágrimas talvez não adiantem, e que não há falta na ausência. Ele queria deixar claro que poderia estar tudo certo. Mas que não depende só dele. Você sabe disso. Não existe controle. Segurança é ilusão. As palavras o abandonavam no mesmo ritmo em que um mar de sentimentos e letras o envolvia. Olvidar é cruzada. As perguntas, todas, as verdades, meias, as omissões inteiras, as mentiras partidas O caminho entrecruzado de sempre. A espera de quem se deixa afetar, eis de onde vem afeto. Ele queria sinceridade e verdade. Porque esperança é fé e amizade é amor.

18 de março de 2009


Esse é aquele em que ele tem certeza e que diz tudo o que acha que quer dizer. Tudo era silêncio e barulho. Ele estava em pé, dançando, parado, a música ritmada com o movimento do seu peito, as notas enchiam o ar escuro, não havia noção de tempo, seus braços abertos, os flashes que desnudavam, pontuais, flagravam seu ensaio não tão solitário, o gelo seco impregnava o ambiente, misturando-se. Naquele momento todas as pressões cessavam, arrefeciam, calavam-se, e só restava a ele escutar. Não havia nenhuma presença, as portas estavam todas fechadas, lacradas, impenetráveis. A sensação era a de um viveiro hermeticamente vedado embebido em noite e voz. A busca pelo imaterial consumiu cada movimento e passo e a presença invertida do que sentia percorria cada centímetro de sua alma. E ela pulsava latente, cinza, viva. Escolha pelo que se acredita que é o melhor, conquista do que se acredita que é bom. E a história repetia-se novamente, interiorizando no âmago uma ordem que jazia agora sem lei. Seus sentidos cegados pelas indicações, parciais, montadas, jogadas, dúbias, convenientes, mecânicas, frias, insanas, premeditadas por uma genialidade que se pretende a invulnerabilidade. Que se pretende. Fortaleza que era alvo do mais contraditório ataque, página da batalha invertida. As canetas que deveriam acompanhar-se na redação da história não pareciam escrever o que deveria ser escrito. Faltava tinta, afeto. Faltava verdade. A instrumentalização da vida lhe embebia de pavor e perplexidade. O interesse, unívoco, unilateral, da singularidade, retroagia no tempo como um espelho frente ao outro. Os olhos estavam abertos agora, e seus braços continuavam esticados, fluindo, no escuro, com os mesmos flashes, pontuais, e a névoa branca invisível o engolfava. Pouco a pouco o tempo lavava a alma tingida, e a canção que dividia a imagem, descolorindo caminhos, chegaria ao fim, terminando por revelar o que restaria de suas certezas, manchadas.

13 de março de 2009


Eu estava sentado num banco plano, preto e macio, com uma meia luz amarelada, e macia, sob um chão de porcelanato, branco, perolado, quase na troca de um dia pro outro, num ambiente amplo e agradável, e eu estava ouvindo a voz que me suspendeu do meu sono, e que por conseguinte me legou a abertura dos meus olhos pra vida. E a voz me dizia, com todas as letras que uma pessoa pode dizer, que tem pessoas que não sabem enxergar o outro, que tem gente que acha que as outras pessoas não podem ser melhores do que elas ajulgam que elas são, que as pessoas tem histórias, sentimentos, uma vida inteira, e que as pessoas podem sim, se importar com as outras e lhes querer seu bem. Nessa hora eu parei. Quer dizer, não sei. Acho que eu acelerei tanto que eu morri e nasci ali, de novo, pela centésima vez nessa vida, mas foi diferente porque naquele mesmo instante eu acordei diferente. Eu tenho a estranha mania de acreditar no melhor das pessoas. Eu acho que eu sou assim porque eu tenho um coração, bom, e agora, mais do que nunca, eu percebi isso, e essa minha característica, ingênua, romântica, sonhadora, explica muita coisa, de sempre, da minha vida toda. E eu levei a voz até o seu destino, e eu a ouvi por todo o percurso, e ela me disse tantas coisas legais e bonitas que eu cheguei a mais conclusões que não são definitividades: são as impressões da vida em mim, eu sou marcado pelos sentimentos e pelas vivências do meu trajeto. Eu amo as pessoas. Muito. E eu queria dizer às vezes eu sou tão feliz por causa delas que eu não acredito que essa é a minha vida. Mas é. E acabou essa história de dizer que o que eu vivo não existe, que nada disso é real. Sim, isso é sério, existe, e isso, pra mim, é viver.

3 de março de 2009


Naquele momento o céu era o chão e tudo acontecia ao mesmo tempo numa sincronia esférica, global e obedecendo a uma ciranda giratória. As nuvens eram as pessoas e tudo se aglomerava bem como se separando, passos condensavam-se ao som de um vento musical, de luzes monocromáticas que desenhavam nas testas, nucas, ombros, mensagens visuais inintelegíveis, a ordem era uma só. E a ansiedade curiosa de umas centenas de semanas daquela vida foi dissolvida em poucas horas de intensos passos desritmados que acompanhavam as batidas energicas, elétricas, conhecidas ou não. Cruzavam-se olhares diversos, divergentes, aparentes, cautelosos, pretendidos. Era como o novo de sempre (e todo o seu contato e consequencia),mas havia sido mais. Dias depois,a brisa sonora voltava trazendo as marcas, agora sim, indubitavelmente, ganhas: cada passo de cada degrau, e cada minuto de cada hora era uma vitória sobre cada uma de suas dúvidas e de seus medos. A companhia dos mosqueteiros era um brinde a sua espera, a seus sonhos e a seu romantismo inapropriado. E naquele dia que cruzou o tempo e trouxe como inédito o espaço, pela primeira vez, estreante, quem chegou foi a manhã, e o tempo nasceu ao invés de partir contrariando todas as previsões em contrário. Na areia o vento era gelado como um nascimento, como quando deixamos o aconchego do ventre para nos encontrarmos com nosso caminho a ser traçado, os retratos eternizaram semblantes novos. O amanhecer singelo e especial despontava sobre a água infinita coroando cada palavra proferida e todas as frases omitidas. Todas, cada uma delas era banhada agora na sensação única e inexplicável, daquela inenarrabilidade concernente ao universo particular de cada um, pela satisfação de uma pintura realizada, de um fundamento firmado na eternidade. Cumprindo a sina da vida estivemos. E a viagem (metafórica ou literal), de um verão (pra não se esquecer jamais), deixou arraigado e intangível, a visão de uma vida possível e real, onde a superioridade do poder ser encerra todas as inevitabilidades da vida, de uma felicidade dissolvida, onde fazer bem feito é lei, e a ordem é o que é difícil. A profecia se materializou em história, em sentimento, em fantasia, e as consequencia geradas pelas mudanças ecoam, trafegam, flutuam, e se processam com intensidade inigualável. Cada amanhecer revela mais um pedaço de mais uma folha da história que trouxe o dia que ao invés de partir, veio. Do inverso que é plenitude acertada: Sonho é Destino.

22 de fevereiro de 2009


O entardecer estava maturado, colorido, não vibrante mas tocado, como uma primeira mão de tinta numa construção em vias de acabamento. O edifício estava de pé, finalmente, e a espera pela conclusão fora a jornada mais longa, temerosa, pesada e complexa de toda a sua existência. Atravessar o tempo junto significa cruzar as barreiras intangíveis impostas pelo envelhecimento e pela passagem de etapas e linhas imaginárias mas tão reais ao mesmo tempo. A simultaneidade de uma vida dividida estampava agora, neste exato momento quando a luz azulada do dia migrava pra além, todas as marcas vívidas, definitivas e exemplares de um processo. Os caminhos se cruzam como uma trama irreal, inimaginável, inacreditável, duma maestria ímpar, singular, brilhante, de acasos perfeitos, encaixados, substancialmente ligados. História quintessencial que não é roteiro de cinema, script de novela, romance de banca, é fato, indubitável, da orquestra autônoma da vida. Cada cor que tingia o céu e as nuvens naquele entardecer ressaltavam e coroavam o fim do ciclo mais longo, e o começo de um novo processo, ainda mais renovador, intenso, marcante e único. Todas as palavras ditas. Todos os sentimentos endereçados. Toda a história vivida. As luzes de todos os postes se acendiam e vibravam. A cidade anoitecia ao som inaudível da satisfação de uma estação inenarrável e insolúvel no tempo, do mais apoteótico afeto, da melhor conquista, da mais especial e sonhada amizade.

15 de fevereiro de 2009

Uma montanha-russa ao contrário, uma estação em que se embarca pra voltar, um vagão de cabeça pra baixo. Tudo aquilo que era pertinente à estação de trem estava do avessso, numa ordem inintelegível, aleatória, caótica e desordenada. Embrulhava o estômago dele ter que ver e presenciar. Sentia como se lhe colocassem uma mão dentro do peito, e lá dentro, era como se um punhal fosse descoberto, silenciosamente posicionado e então ele era rasgado por dentro, mutilado, não havia piedade alguma, não havia misericórdia nem redenção. A dor explodia dentro do seu peito e cegava sua mente, os gritos surdos subiam e desciam pela garganta e ele não conseguia ver mais nada, ouvir mais nada, sentir mais nada. As implosões não cessavam, se sucediam, demoliam cada estrutura, cada resistência, tijolo por tijolo dos muros pretendidos a proteger o castelo. A contradição de sentimentos o aniquilava, e cada segundo a diante naquela montanha-russa às avessas, era como um mergulho no vazio da ausência, da voz que não perpassa a boca, do lábio perdido no escuro, do sorriso que sempre oculta a lágrima. Eu não sei como, mas eu não queria ter olhado pra fora.

12 de fevereiro de 2009


Eu não sei como, mas você deveria olhar pra fora agora.

31 de janeiro de 2009


Minha violência é um monstro às avessas. A energia da dor e do sofrimento alimenta um ser que é como veneno letal condensado, de uma dor mágica e enegrecida pelas formas e pelo tempo. Ela é uma cobra sem boca, uma abelha sem ferrão, um escorpião sem cauda, uma água-viva sem toxina, um orifício sem espinho, um leão sem dentes, um gavião sem olhos. Minha violência não extravasa, ela se dissolve em mim e se acumula em cada extremidade, em cada pedaço de meu corpo, estou tomado pela raiva e pela culpa, e como não consigo extingui-las, nem esquece-las, nem transpassa-las, elas me envenenam, me envelhecem, me definham, minha violência me mata por que ela compete com o ímpeto de vida que habita em mim. Minha raiva e meu ódio não podem ser compartilhados porque não mudam a história, porque não reescrevem meu nascimento, porque não alteram a dor do que passou, as palavras que foram ditas, as cenas assitidas, os socorros não atendidos, minha raiva é como um amor não correspondido, como minha maior e mais profunda paixão rechaçada na mais perfeita comparação, na mesma proporção. Pergunto agora o que faço com toda a dor, a mágua, a raiva, a rejeição, e aqueles dias eternos dessa vida tão curta mais tão marcada, o que fazer de uma vida que começou torta, errada, incompleta. Eu não encontro reflexo do que sinto no mundo palpável, meus sentimentos são indesejáveis, condenados, desaprovados, inoportunos. Onde foi que eu errei é mais uma indagação, da coleção mais absurda e crua que tive de ouvir. Erro? Talvez nascer seja um erro, do qual sempre me atribui culpa. Hoje, com a ciência de que não posso retornar pra tentar ser diferente do que sou me resta a confusão que me domina. Quero encontrar a válvula que libere, a substância que metabolize, a palavra que trucide, o encontro que dilacere, quero que minha violência morra e que não me mate, quero que meu ódio me abandone e me deixe só, como sempre fui e sou, quero que minha mágua parta de mim em cada lágrima como essa, agora, que escorre do lado esquerdo da face, quero paz pro passado que não volta e luz, faço esse pedido de urgência e de entrega, porque meu futuro é negro, as sombras se espalham pelo chão e meus passos são cegos, meu presente de espera e dor é tortura, e eu proclamo, com cada letra de cada palavra que ainda posso proferir, que eu não aguento mais. Minha vida é um acumulo absurdo de lembranças e medos, de rejeições e isolamentos, a solidão que é defesa também é prisão, e a exclusão de um amor que ama e que machuca e que o faz pretendendo incluir é meu maior algoz. Eu não escolhi tanta coisa, a maioria das coisas que aconteceram comigo eu não tive como escolher, como uma criança pode saber o que sentir ou não, o que ouvir ou não, o que assitir ou não, como repartir algo que não pode ser repartido. Eu só não sei das coisas, eu não sei quando, nem onde nem como porém um dia isso tem que acabar, e eu espero, com todas as forças que ainda restam dentro do meu coração, que a esperança continue a me guiar, e que eu saiba subir desse poço, fundo e escuro, gelado e infinito no qual eu cai, e que minha âncora seja leve pras minhas asas, e que não me acorrente, nas profundezas, na pedra mais pesada, pra sempre, até o meu fim.

28 de janeiro de 2009


É no amanhã que sinto a tua falta. Numa daquelas minhas viagens por ai, li um depoimento que foi como um reflexo, me senti escrito como quando você se olha no espelho, e naquele dia, se reconhece naquela imagem que ali está refletida. Sim, eu sinto saudades de coisas que não vivi, eu tenho medo de ficar sozinho e de perder coisas que não me pertencem, é como se eu esperasse por ter aquilo que eu nunca tive mas que eu sinto como deve ser ter. Uma vez eu achava que eu gostava do que não existia, e o fazia por não entender o que eu sentia e por não saber nomear o que me agita, me atormenta, me suga, me injeta, me amortece, me vitamina, me mantém, me segura, me entrega. Eu ainda não sei nomear as coisas mas começo a reconhecê-las, e as desejo, ainda que de forma tímida, culposa e parcial, pra mim e por mim. Não me imagino realizando-as, muitas vezes elas são um combústivel imaterial que me leva em sua direção e que dúvido muito que conseguirei encontrá-las. Meus desejos e sonhos são o que me mantém vivo, é como uma âncora-combústivel, que me alimenta e me acorrenta simultaneamente. Eu sou uma pessoa simultânea, e vivo uma vida una, porém dividida, recortada por condicionamentos materias e sentimentos que não escolhi, é estranho não querer ser quem se é, ou então querer ser quem é porém diferente. Sempre os iguais-diferentes, a busca do outro em você, eu tenho um problema com felicidade. Eu não consigo ser feliz. Eu tenho um vazio, uma dor, uma coisa estranha que me perturba, que me faz nunca querer estar onde estou, que me dá gosto por músicas tristes e que me escraviza dentro de mim mesmo, como um escravo açoitado por um capitão-do-mato que não é ninguém mais ninguém menos do que ele mesmo. Eu ainda sou aquele adolescente atrasado, que está descobrindo o mundo, pela primeira vez, como se sua vida não tivesse sido uma estréia, e sim um ensaio infértil e infrutífero. Foi um fracasso pra ser franco. Naquelas horas de nó na garganta e lágrima pronta pra escorrer, eu sinto como se eu fosse explodir implodindo, e minha vontade é de desligar, sem eufemismo, eu tenho vontade de morrer por que isso me silenciaria, faria aquelas vozes que gritam dentro de mim se calarem e quem sabe aquela coisa que me tortura e me persegue definhe e desapareça com o meu fim. Eu acordo e vivo todo dia movido pela esperança de um dia poder ter o que não tenho, de possuir o que não possuo, de viver o que não vivo e sobretudo o que não vivi. Eu tenho esse desejo absurdo de me realizar, de ser feliz adoidado e de fazer outras pessoas felizes. Meu desejo é de entrega, doação, cumplicidade, troca, amizade, carinho, amor. Eu desejo compreensão e um companheirismo cheio de coisas que se parecam comigo mas que sejam diferentes de mim, para que eu possa estar sempre mudando, me transformando e me compeltando. Numa ciranda que persegue a perfeição e que realiza com maestria a sina da vida. Me imagino numa sacada limpa, fresca, com um vento gostoso, leve, sentado numa cadeira macia, com uma bebida gelada, olhando pro mar lá fora através dos olhos de uma pessoa que olha pra lá e que sorri, que está ao meu lado viva, limpa, brilhante e linda, alguém especial, que mora em mim e que me faz ficar aqui, sempre, na mesma sala de espera.

16 de janeiro de 2009

Era um caminhante solitário, desengonçado, e triste. O vento em seu rosto era fresco, lavado pela chuva ele trazia encerrado em si a noite e o entardecer certeiro e gradual. A grama em seus pés estava verde, viva, vibrante, havia gotas fixas em toda a parte, em toda folha, como se num mosaico salpicado, bicolor e translúcido. No limiar do caminho estavam as pedras, sujas de terra, borradas num marrom manchado, forte e tenaz, ao longe se avistavam os pássaros, partindo, pra longe. E a sua companhia era a canção que tocava todo dia no mesmo tom, cantada pela mesma voz, acompanhada pela mesma dor, uma dor que não lhe doia na perna, no braço, ou nas costas, era uma dor estranha, intensa e branda ao mesmo tempo, uma dor que não passava, que esmorecia e revigorava-se sempre, uma tristeza leve e persistente. Seus pés calçados ignoravam a sola de seus calçados, e estavam molhados, atendiam ao tato sentindo a água gelada da chuva, intermitente, teimosa, cinza, como se os céus fizem a sua vontade. O garoto tinha lágrimas guardadas, extravasando, enchendo-lhe, na borda de sua razão, a fonte de sua distinta resistência. As árvores balançavam ao som do vento, como se em sintonia, ora leves, ora agitadas, elas cantavam ao seu modo, acompanhavam seu caminho, correspondiam à sua presença com sinais sonoros. Ele caminhava devagar e deixava a água escorrer por suas roupas, agora encharcadas, e tentava fixar seu olhar no horizonte, nublado, turvo, inconsistente. A palma de suas mãos mexia em seus cabelos como forma a suavizar sua tristeza, quem sabe talvez elas procurassem uma entrada para sua mente, uma forma de apalpar o que doia, de retirar o que latejava, de atenuar seus sentimentos, gastos, confusos, inconformados, marcados pelo caminho que jazia pelos seus passos traçados. A noite caía mais uma vez, junto dela raiava a primeira estrela, luzindo, perene, no começo do céu, acima da borda nublada e ainda clara pelos restos do dia. Suas roupas estavam pesadas e seu corpo já não lhe respondia mais como antes, cada passo era mais gelado, difícil, e cansado, e suas memórias vivas pareciam lhe dizer pra parar, pra encerrar essa jornada louca, solitária, esperançosa e penosa. Cada árvore acomodava-se agora que o vento arrefecia, grilos, esparços e cigarras, juntas, emitiam suas vozes com vigor, paixão e vontade, sensações e sentimentos que o abandonavam pouco a pouco, sua vida era como uma âncora em terra firma a ser carregada, apesar do costume, ela nunca estivera tão pesada, e residia nesse fato, da fadiga e do esgotamento, a essência dessa dor crescente e forte, uma desesperança tão real e palpável que ele já sentia o frio da noite nos olhos que marejavam e soltavam aquelas lágrimas salgadas, concentradas, retidas, e ele cedeu à força do peso, e sentou, na noite caindo, fria e gélida, sob aquela chuva sem vento, numa paz irônica e cruel, sob os pontos cravados de estrelas longínquas no céu e sonhos perdidos nos seus passos, pelo caminho marcado, que ficava para trás, sozinho.

15 de janeiro de 2009


A música soava leve e sincera, e ricocheteava em sua alma, tocava em cada medo, em cada temor, em cada sonho, cada espera, cada necessidade postergada, silenciada e amordaçada. Ele caminhava meio sem saber o que esperar, o que pretender, o que querer, na verdade, quanto mais se conhecia e sabia, menos entendia, uma razão estranha, uma ordem que não era dele, determinações, rótulos, marcas de uma vida tão descolorida, tão traçada a caneta, sem direito a borracha, lápis, correção branda, com coloridos de lápis de cor emprestados, ausentes, diminutos, rarefeitos. Amar era como o estranhamento de um encontro, como uma espera boa e gelada. Ele era um garoto que amava, em silêncio, em volume alto, ele amava em tantos tons, em tantos matizes, ele amava em canção, ele amava em palavras, ele amava em olhares, e ele amava cada dia quando acordava, e era cego, e inebriado, e tonto, e ele era tudo o que era pelo amor. Ele amava demais, e talvez amasse errado, ele era entupido de amor, amor que não fluia, não trocava, amor que não tocava, não sentia, amor que não se permitia, que se acorrentava, se escondia, amor que confundia, que atordoava, quem sabe tudo sempre fora questão de amor e dor e sentir?
Havia umas lágrimas escondidas em cada nuvem de cada pôr-do-sol dos últimos dias, havia um sentimento de tristeza por trás de cada música, cada filme, cada beijo assistido, em cada eu te amo visto, havia medo, tristeza, culpa e dor por de trás de cada palavra dita e sorriso entregue, havia tanto a ser discutido por ele. Havia amor, e tristeza, e a espera, e isso era tudo. Ele se montava todo dia, se desmontava em cada crepúsculo e ele pensava quantos dias mais, quantas semanas, quantos meses ainda resistiria a essa auto-linha de montagem, a esse medo de viver, a essa resistência de dor, a essa mágua do mundo, a esse céu escuro de nuvens carregadas que não deixavam espaço pra entrega, como a de cada raio de sol, em cada novo alvorecer.

11 de janeiro de 2009



Era como uma praia cinzenta, num inverno incessante, num fim de tarde nublado, gelado e escurecendo. Seu interior tinha tantas semelhanças com aqueles cenários, paisagens que traduziam suas emoções, cada novo dia, mesma vida estática, congelada, derretendo aos poucos, num degelo que obedece a uma lógica absurda e inversa. Ele sempre chegava a conclusão de que estava cansado. Um nada sempre adormecido despertava, e com ele a força destrutiva e irrefreável do vazio. Um silêncio tão gritante e pavoroso que extinguia cada sopro de vida, que eliminava cada feixe de luz, que definhava cada sonho, detalhe por detalhe, e os desfiava até sobrar um monte de ilusões gastas, recicladas, novas e velhas simultâneamente. As folhas que ele teimoso fez nascer, e brotar, e ganhar envergadura cediam ao passado de ausências, dor e medo e emagreciam como sua face jovem e marcada. O caule que sonhava ser vistoso, e que havia estado na transição de seu verde juventude para o marrom adulto, interrompera seu ciclo, ele enegrecia e se tornava mole, como se num choro interno, morrendo, não pudesse pedir socorro mas pedia. Ele tinha vontade de renascer ele diferente. Como o sol que irrompe a escuridão de cada manhã, ele queria amanhecer sem marcas na sua pele tão gasta, ele queria que suas mãos fossem tão mais lisas, e que o toque áspero não lhe pertencesse, ele queria ter os olhos brilhantes, de oceano, que ele já portara, ele queria receber novamente a capacidade de estado sinistro, gauche, ele queria ter podido ser tão feliz. O passado era como um jantar atravessado, mal digerido, não mastigado, como aqueles remédios encapsulados que somos obrigados a tomar e que nos trancam a garganta. Suas pontadas eram cada vez mais agudas, pontuais e concentradas. O entendimento havia trazido mais certezas e mais confusão. O céu nublado, a canção triste, incompreendida, sua alma cheia de inflamações, tantos cenários, quantos personagens e na soma de balanço, que tremenda solidão. O macio dos lençois rasgados ia embora com a incapacidade de exercer seu papel, o tempo chamava o tecido de volta, a se tornar resto, a se decompor em paz. Os gritos mudos de dentro dele ainda não tinham cessado. Ele estava cheio de um vazio povoado, de uma confusão pretendida a ordem, de barulhos inaudíveis, de canções tocando sem autoria e letra. Os tantos não fins de todas as histórias não suas eram muito para tão pouco espaço, as grades não eram tão maleáveis, sua capacidade não era tão dúctil, sua força era muito mais volátil do que sua esperança, seu medo vencia sua coragem, e a cegueira pela dor forçava a luz a não voltar mais, a reluzir dourada, e intensa, e por fim, se extinguir.

9 de janeiro de 2009


Sinto como se cada novo dia fosse uma nova chance não possível, como quando se convida alguém e sabe que esse alguém não comparecerá. As dúvidas que povoam cada pensamento são questionamentos de todas as ordens, múltiplas, reincidentes, de sortes pacíficas nos outros, no mundo. A busca pela satisfação dos sentimentos é uma batalha encerrada em si mesma porque não se há certeza do que satisfazer, em consequência de não se saber o que se quer realmente satisfazer. A insatisfação que motiva a raiva quotidiana que se morfa em tristeza reside no fato inquestionável e indubitável de uma realidade cruel e finita, limitada e pequena. Os limites sempre foram meu algoz mais impenetrável, invencível, intangível. O que espero se traduz pela não expressão, pelo que não digo, talvez pelo que nem sinto, porém pelo que espero. Não consigo mais escrever como eu gostaria, não consigo mais depositar nas palavras minhas dores, não, minha dor, porque apesar de latente e pontual, o sofrimento atinge o todo no âmago. Minha vida é a sucessão de novas esperanças falidas, de ilusões retroalimentadas e de sonhos que habitam do outro lado do limite. Sim, vivo na busca incessante por cruzar o limiar, por transgredir o imposto, por desafiar a sina do destino que me condicionou. Cada novo dia traz sempre as mesmas sensações. Às vezes mais intensas, às vezes mais tênues. Borradas ou não, sou como uma mancha que desbota e se renova sempre mais vívida, nova e intransigente. Como um botão de rosa que nasce, desabrocha e antes do ápice da plenitude da vida, regride, retrai, se encapsulando novamente, definhando folhas e caule, em semente.

7 de janeiro de 2009



Quando eu fui jovem a borda do horizonte era colorida, mesclada, amarelo-rosada, coloria o azul pálido que adormecia todo dia, no mesmo momento, em tempos diferentes. Tudo dentro dele era vulcão, instinto, urgência, tentativa, vontade, o desejo o consumia inteiro, e ele o alimentava como criação, elemento que mandava, guiava, sua ambição era desproporcional, sua inveja incontrolável, e sua ânsia por possuir e consumir a vida de seus sonhos tinha a dimensão de um céu inteiro, coroado por uma lua alva, brilhante, manchada, presente, imponente, quase-completa, parcial, incompletude que era como ele, pedaço de gente, meio sonho-meio ilusão. Emoções puras que implodiam, explodiam, misturavam, desciam e cresciam, subiam sem fim. A mesma espiral, temporal, do passado, as mesmas dúvidas, as mesmas questões, sempre o suspiro de incompreensão, a mesma interrogação que não o deixava tranquilo. Necessidades, incapacidade, falência da criatividade, da expressão, de comunicar, de endereçar, derrota do olhar, da coragem, da capacidade. Limites, barreiras, paredes, todas invisíveis, inorgânicas, imateriais, porém tão mais concretas que tudo que ele podia tocar. Correntes invisíveis, prisão inescapável, grades, céu do outro lado, mundo lá fora que convida e não recebe, desejo que não corresponde, que não lhe envia, visão quebrada, limitada, enclausurada, infinitas passagens sem saída, canto silencioso que atormenta, badalada que ressucita, pancada que desmonta. A tarde se deitava como quem foi sem querer, deixou-se perder, partir, e mais um dia cheio de coisas inomináveis se findava. O céu ainda estava borrado, tingido, aquarela celeste que inspira, natureza que brinda, conforta, som que leva dedo na tecla, emoção à tela, sonho pra fora, caminho nublado em que pisa ele.

30 de dezembro de 2008

O verde e o silêncio compunham um arranjo dúbio: a paz e a tranquilidade se entrelaçavam à solidão que vivia na borda, à espera de um convite para estar junto. Foram dias vendo a noite cair, o silêncio chegar na espera vigilante por todos, por eles. Foram tantos medos, e tantos receios, e tanto escuro, que estar sozinho era cruzada intransponível e traumática. Pavor dele, medo, dor. O céu estava muito mais azul do que sempre estivera, as nuvens estavam longes, e tanta coisa estava mais clara. O tempo passava e ia arrastando, levando com ele tudo aquilo que estava há muito estancado, parado, barrado, cedido. Palavras, letras, coisas soltas, tons que se acumulam, sons, batidas do coração, são nós na garganta e epifanias que traduzem sentimentos, sensações, que entregam ao mundo seus sonhos, devaneios, vontades, desejos de menino, homem, filho, ser humano.O mesmo verde e a mesma tranqüilidade agora se travestiam em novo caminho, em esperança de olhos arregalados, em vento que sopra rejuvenecido pelo alvorecer das novas chances, dos novos olhares, do querer novos amores, novas paixões e com aquele cheiro característico, fresco, convidativo de tudo aquilo que é novo. Poente que era simbólico de renascimentos precedidos de quedas, da sina que cumpre-se à risca. Água gelada que anuncia batismo, coração ritmado que se reconquista, fé na digestão do pretérito e nos encontros cheios de desafios do novo ano, música que conduz, inspira, encontro que aglutina, nota que pesa, que formata, amarelo que envolve, luz que cobre e engrandece, dourado que anuncia, areia que circunda.Respeito que é aprender, vontade de gritar bem alto, pro infinito, peixinhos, branco alvo, olhar cruzado, oceano, viver matizado em corpo, desenho, traço, encanto da vida. Sonho do conto de fadas ainda não vivido, da peça assitida, da atuação cativa no futuro. Vida viva que espera ansiosa por amor.



27 de dezembro de 2008


Tenho em mim todos os sonhos do mundo. São todos meus. E se não são meus então são eu. Sim, sou uma massa vivente de vontades, desejos, ambições e espera. De todos os múltiplos anos de trezentos e tantos dias, sua grande totalidade deles passei no aguardo, no projeto, na idealização, na sala de espera da vida. Cansei de ficar sentado, mesmo sem saber como me manter em pé, levantei, tentei passos, busquei equilibrar-me e não consegui, cai, me machuquei, clamei por ajuda, me ergui, e mais uma vez, sentei, e levantei, e segui dentro da sala de espera. Sou adolescentemente claro quanto a isso, não tenho mais paciência, tenho urgência, vontade, desejo, sonho, quero felicidade, adrenalina, emoção, movimento, quero cruzar a porta da sala, quero o fluxo, o trânsito, a aventura da existência. Ainda não consigo imaginar o mundo lá fora como ele deve ser, ainda me enfeitiço, me encanto, fantasio em demasia. Espero que a maturação progrida, que eu enrijeça, cresca, intensifique o equilíbrio. Eu quero coragem, sorte e realização. Estou me conformando que somos sozinhos, que nascemos sós, e que ninguém exceto nós mesmos nos acompanha sempre. Céu azul, sol de verão, sorriso na fronte, novo ano de experiência e espera nova. Os bons, como diz a etiqueta, nunca se rendem.

20 de dezembro de 2008


Aquilo que se conquista não se pode delegar, não se entrega, não se dá, não se doa, só se deseja. Desejo que é sim entrega, porém de um querer tão mais simbólico e bom. Atitude humana refinada e doce, sublime, leve, sofisticação que encanta, fantasia que nos guia, onde quer que a realidade nos leve. Escrever é um pouco de ser, um tanto de vontade e muito de necessidade. Se esparramar no papel é se dissolver em letras, que te devolvem teus sentimentos, misturados, mixados, confusos, amalgamados em palavras ordenadas por lógica, senqüência, tentativa de se fazer (e) entender(-se). Era o som que o tocava, a nota gelada da música que o fazia viajar, dali, do sofá carregado de histórias, coadjuvante passivo de toda uma vida vivida como pode ser, que ele transgredia a realidade, e compunha-se de toda a coragem que poderia ser dele para viajar. Sua imaginação era trem, merkaba, veículo espacial, inter-temporal, o gosto do embalo era o de um infinito e tranquilo campo verde, meio claro-meio escuro, cheio de vento, e céu azul, e mato grama. Vento fresco, alma nova, inovando, estreando, sentindo o viver, encontrar-se e encarar-se. Não mentir, pedir, palavras que raspam na pele, que ricocheteiam na alma, que travam a batalha no muro. Da fortaleza; sim, ele ergueu uma, e eles querem invadi-la, estão tentando, avisaram-no, seu maior exemplo lhe alertou, e ele ouviu. Os guardas estão a postos, inexperientes, verdes -na ambigüidade permitida-, mas corajosos como seu senhor. Desejo vento, azul, e o vermelho que brota de dentro e me leva. Sou juvenil, sentimento puro, amor-desejo, carinho, medo, coragem como paixão.

17 de dezembro de 2008


Era ainda a sua urgência juvenil. E sua fonte de inquietação, assim, clara, explícita, lhe tranquilizava, porque no fundo ele sabia o que o artomentava, não como pavor, mas como angústia: sua vontade de viver. Talvez o mesmo tempo que ajudou a converter e transformar seus sentimentos e sua história, agora estava sendo requisitado de outra forma, mas o tempo é um só, e talvez por isso ele não possa corresponder... Ah, como poesia era coisa linda, mágica, como ele podia ver o que sentia nas letras, nas frases, tecidas, esculpidas em fragmentos, pedaços de pessoas como ele, não estar sozinho no mundo do sentir era um alívio. Ainda não entendia direito como viria a ser. Ainda não estava sentindo tudo como deveria sentir. Sentiria um dia? Metade medo, metade todo o resto.
Eu fecho os olhos e desejo, desejo um mar de arrepios de alegria, de surpresa boa e de realização. Pedi pro papai noel que realize meu desejo, que me conceda aquilo que eu mais quero, a concretização da espera e do sonho, que pode ser conversão da simpatia, descoberta do novo, surpresa do entorno, resgate do seu marco, infinitas possibilidades resumidas a um encontro, um ato, um carinho. O sol vinha vindo, cada vez mais de vez, havia dias de nublado dentro dele, sim, mas já não chovia, as lágrimas pareciam ter entrado num sono tão diferente, sabe, na verdade lembrar de tudo parecia acordá-las mas elas não despertavam por completo. A inspiração pra derramar no papel e na tela o indizivel também estava tênue e sem aquele brilho de encanto que eu gosto, porém essa era uma etapa, uma fase mais, um momento pelo qual a travessia que iniciei possui. Sim, foi uma travessia, ainda está sendo. Cruzei uma prisão gigantesca e sombria, um deserto tortuoso e desfigurante, encontrei alguns oásis durante o percurso, quase tombei em muitos momentos, e encontrei a selva, quando sai do outro lado, encontrei uma praia extensa, quase sem fim, e ainda estou caminhando por ela, na busca por algo que acredito ser, é o que me deixará mais perto da plenitude do querer viver e sentir-se; daquele jeito que dá vontade de caminhar sem medo e destino, que faz a gente adormecer e despertar prontos pra cada novo desafio, pra realizar cada desejo e respeitar cada vontade: amadurecendo sendo cada vez mais si mesmo - com aquele gosto que faz da gente pura luz, sorriso e amor.

14 de dezembro de 2008


A pergunta. Sim, foi ela que levou ele tão longe e me trouxe até aqui. A dúvida e o sonho me guiaram até uma vida nova, uma vida que transformou-me, em ser novo, revestido, recheado, em pessoa nova, disposta, autêntica, eu vivi a vida, e ela me devolveu a experiência inédita de ser quem sou. Ser eu mesmo é pra mim uma experiência tão nova e intensa que me custou dias, semanas, meses inteiros. A experiência de encarar a si mesmo, e de me trazer a mim, de me devolver a quem eu pertenço, a sensação de receber algo que é meu e que eu, porém, nunca tive, é a de alguém que sentiu na pele o sentir. Amor, sim, eu amei, e amei muito, tanto, e de forma tão louca e urgente que cai num abismo escuro dentro de mim, e a solidão me corroeu, me enlouqueceu, no entanto me encorajou, me fez pedir socorro, me fez errar também, contudo nunca acertei tanto e jamais eu havia feito até então, tantas escolhas corretas. Hoje, nesse crepúsculo de dois mil e oito, quero proclamar a mim mesmo, e às nuvens, à chuva, ao céu e ao sol, e a todos aqueles que me são caros, que nasceu enfim, o mesmo menino novo. Foi desfeito o papel imposto, a cena montada, o artista pretendido se despediu do palco, a transformação é a mudança de alguém que passou a escutar seu próprio coração, e que encontrou no mundo, nesse mesmo mundo que o levava desejar morrer tantas vezes, pessoas com quem compartilhar seus sentimentos, seus sonhos, com quem compartilhar-se, e dividir-se, doar-se, entregar-se e mudar-se. Nessa madrugada, ele sentiu na pele aquela mesma felicidade, pura, intensa, letalmente revigorante, inesquecível, tão concentrada que ele sentiu o gosto da vida, do bom viver, do bem viver, e ele agradeceu a cada um deles, os dois, seus maiores presentes por ter tido toda essa experiência. Eu não acredito que isso tudo é real, que tudo isso foi real, eu não consigo acreditar que eu recebi palavras, sentimentos, desejos remetidos a minha pessoa, eu nunca me senti tão querido, tão amado, tão companheiro, eu nunca confiei tanto, eu nunca me senti tão bem, eu nunca fui tão feliz como nesse dois mil e oito. Ano inesquecível, cena da parede de memórias, dos registros do tempo, dor que fica na lembrança, loucura que ensina a sentir, razão que racionaliza enfim, desejo que aflora, que pede, que pronuncia, amor que reparte, comparte, brota, que flui aceso em direção ao coração, carinho que penetra na alma, gosto da vida que tempera o tempo, três amigos, tantos dias, muitos sentires, uma múltipla história única cheia de paralelos traçados. Letra que deposita, foto que imortaliza, alegria que impulsiona. Nesse exato momento quero agradecer mais uma vez: muito obrigado. Nada mais será como foi ou era. Obrigado por toda a felicidade e o carinho que senti. Dúvida que virou Amor. Amor que converteu-se em Dor. Sincronicidade que amalgamada em Amizade, fez do sonho Felicidade.Rimas pobres, palavras ricas. Acaso não existe. Era pra ser.

7 de dezembro de 2008


Era o estranhamento do novo. Nunca antes havia ele sabido o que era ser ele mesmo. Cada dia era como um daqueles carros, num fluxo unidirecional, intenso, diferente, colorido e incessante. Ele havia crescido desqualificando o sentir, sentimentos eram difíceis, perigosos, sofrimento, excesso. Racionalidade era bom, controle, tecnicidade, tentativa de domínio, homicidio dos desejos. Ele jamais havia imaginado que iria tão longe -no sentir- em tão pouco tempo. Ele nunca, nem no seu mais belo sonho de outrora havia chegado a cogitar que poderia vir a ter a possibilidade de ser tão feliz. Talvez ai o porquê de tanta inveja. Querer ter o que o outro tem, no âmago, o desejo de ser tão feliz quanto acha-se que o outro é ou parece ser. Calma, alegria e satisfação não rendiam inspiração, não davam bons textos, não teciam a confusão em letras, descendentes e ordenadas no papel, numa espiral enfileirada e coordenada em linhas, pontos, frases inacabadas e escancaradamente humanas. Era a auto-tentativa de querer encontrar-se no espelho das palavras, do perder-se tão familiar que sempre achava, ou quase, um esperança de seguir, no fim de cada ponto final. Teria sido uma grande confusão de sentimentos, teria sido um grande amálgama de sentir, teria sido um grande sonho, teria sido uma grande realização esperada, tantas indagações da realidade vivida e pensada. Talvez o gosto dele por cerimônias, homenagens e encerramentos explicassem um pouco seu premente desejo por apoteoses e consolidações etéreas. O vazio existia, e colidia com o nada tão familiar que estava na batalha eterna do acreditar e do querer. Grandes montes de coisas abstratas batalhando num espaço-tempo que só existe dentro da imaginação que mora dentro dele. Descoberta da felicidade sem culpa, aceitação do hoje, de si, tentativa de cessar o entendimento porque viver é muito mais que racionalizar o que não se pode enquadrar, tampouco denominar. Numa perspectiva do passado, se atento aos quereres periféricos e envergonhados, pode-se dizer que havia sido quase tudo em poucos meses. Suas lágrimas encheriam baldes, sua felicidade piscinas, água, líquido da empolgação dele. Dos desejos realizados, pretendidos, alcançados. Beleza, riqueza, inteligência, conteúdo, admiração. Escada do labirinto cheio de andares. Certeza de querer ser como eles são, ou pareciam ser, desidealização que opera, descontrução que liberta, saudade que é carinho, vontade de felicidade, espera de realização pra ele, abraço que não cessa, lembrança fixada na parede enterna da vida, do agosto de dois mil e oito, do domingo de madrugada, da catarse coletiva, do rendimento do eu ao amor. E lá se vai um tempo que não vou lamentar como passado, que não vai me prendar mais pelo desejo de reviver -é isso que ele faz, e quer continuar fazendo-, é isso quje ele sempre fez com tudo que é dele, porém agora, já que ele mesmo é outro, é ele, isso também deixará de ser, porque isso não é ele, verdadeiro, isso era dele, outro, artista da vida que dissolve no tempo, horas de conversa terapêutica que descotinaram seu encontro, sonho, muito sonho, nuvem, fantasia, céu, chuva , dor, calor, sofrimento, água, música, palavras, letras, blog, sonhos, tantos desejos e imaginações conjeturadas. Recortes, emoldurados, fixados, passivos da admiração eterna que não escraviza, que suaviza sim, edifica, amortece e encoraja. Páginas brancas vivas à espera da história a ser escrita. Passo-a-passo do no autor da sua própria história. Saga de um menino ex-canhoto, ex-olhos azuis, ex-prisioneiro, ex-não-ele-mesmo. Eu adoro narizes bonitos e unhas saudáveis. Tenho inveja de beleza e riqueza. E falo o que tenho vontade - ou não, mas tenho falado.
Aprendizado poético: Não há falta na ausência. Que Drummond e todos os meus novos e velhos conhecidos sejam bem-vindos. Meu tempo é, sim, quando.

30 de novembro de 2008


Ahh, como havia sido esse tempo todo, o que havia sido esse ano que escorria agora. Eram os últimos dias, as últimas semanas, e tudo havia sido como era pra ser daquele jeito meio mistificado e real-cruel que ele conhecia. Que caminhada havia sido, que aventura, que travessia, que tempestade. Que funda foi a descida, que longa era a subida, quantos intermináveis e espinhosos infinitos degraus, quantas lágrimas, soltas, caidas, quantos dias de luto, de morte, de agressão, quantas conversas de dor, de aparência, de tentativa de parecer sentir. Não adianta fingir, não há enganar, só há você, só e sempre. E era ele, que estava vendo o dia amanhecer, não como naquele dezessete de agosto, não era êxtase e paixão na veia, era perplexidade, paz, e riso, era uma mistura de uma sensação que agora era possuida por ele. Era como se a costura tivesse sido terminada, como se o último ponto, o decisivo, o definitivo, o ponto do nó tivesse sido dado. O mesmo azul da praia, o mesmo perfume do amor, o mesmo sorriso da daniela, e apesar de tudo isso, que era everything, ele não sucumbiu, ele sentiu ciúmes, sim, entretanto talvez de amizade quem sabe, e a vitória se fazia raiva que edificava postura, rosto, independência da escravocrata relação auto-instaurada. A curiosidade venceu o medo, o gato saiu pra noite, pardo, e voltou novo, castanho azulado, confiante.
Nada de muita coisa que ele havia achado tinha sido, e as surpresas eram muitas, as certezas mais, e do nada se fez a vontade, pena que o ventura não estava. Gigante como o grito preso de uma vida, de dizer o que pensa, de desejar o que sente, de brindar esse viver tão incompleto porém tão cheio de agoras possíveis, perpassados, transcendidos pela passiva omissão neglingente dele. Ah, como tinha sido legal, assim, tanto quanto uma festa de quinze anos do passado, ou um passeio no parque de diversões que ele tanto desejava e havia sonhado. Som, música, luz e olhares. Muitos, e quantos, e que lindos, olhares mil, rostos muitos, beleza, sorriso, brilho nos olhos, mágica da vida, lustre de brilho diverso. Sem definições passo adiante, o que não mata engorda, tudo que vem vai, e a escada que parecia infinita terminava um dia. A fantasia é a gente que faz, a gente que cria: quanta imaginação que fez sofrer. Bobão ele, agora o riso é sorria, e sentia a paz e o sono chegando. Agora era o mais, a hora do sentir alvorecia, folha limpa, dias que escorrem, cronômetro que reinicia, futuro que aponta, disponta, possível, incerteza daquela delicia com sabor de felicidade.
Passa, tudo se vai, e assim como, chega, no seu tempo certo. Dia vinte e nove de novembro. Eram especiais, e esse então exemplar raro, daqueles que inauguram eras, descortinam reinos, abrem passagens, vislumbram o passo, apresentam linhas, traçam caminhos. Vontade de mais dias assim, mais desse som, dessa sensação, dessa confiança que surpreendeu, isso, muito mais vida pra matar a fome de viver - que é, sim, muito melhor que sonhar. Desejo de olho no olho, bem fundo, mergulho na alma que habita o céu que abarca sua vontade de desejo. I wish more wings to fly.

26 de novembro de 2008


O céu tinha nascido como guache misturado no papel pardo do jardim. Azul e branco borravam nuvem e firmamento com o cheiro fresco e úmido da tinta que lambusava os dedos. Dias sem palavra, dias de só sentir, entrega da razão à razão, passos de estrada feita com afinco. Vontade que tinha revigorado energia de seguir, fragilidade da coragem de recomeçar sempre. Esperança gratuita de paz e equilíbrio. Ele olhava pro banho de luz das nuvens e torcia que a chuva fosse embora; não só a de fora, principalmente a de dentro. Falar alto, entender egoista, sol e calor dele, felicidade nele e pra ele que era conflito com quem gostava um pouco. Sentido de conclusão, desejo de êxito, espera de amor, de olhar, de coragem pra seguir no caminho, do afinco pertinente ao sonho do mim. Perdido no deserto de si mesmo a caminho do encontro consigo.

20 de novembro de 2008


Cada movimento é pesado como ferro.
Cada palavra é áspera como lixa.
Cada pensamento é pontiagudo como espinho.
Cada dia é dor que urge, não sara, tremor que não se retém, origem latente, que escorre, desce em lágrima, a prestação, coração estilhaçado em revolta implodida, amor negado, rejeitado de forma explícita, letra por letra ignorada, não respondida, jogada fora, como lixo, montes dele, era ele.
Desencontro quotidiano.
Dos fins de todos os não (ou quase) começos.
Socorro que não chega. Ajuda que não ampara.
Caminho que não aparece. Mágica da vida que esgota, cansa, arrefece, aquieta, cega, inebria, sonambuliza, afoga, abafa, cala, dorme o sono da fome de vida.

18 de novembro de 2008


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo

Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa curiosidade pelo momento a vir

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinícius de Moraes 15/04/1962

17 de novembro de 2008


UM SONHO NUM SONHO

Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fugidia?
De maneira qualquer fugiria.
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho.

Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou e suponho
será apenas um sonho num sonho?

(Edgar Allan Poe)

16 de novembro de 2008


"A essas pessoas é fácil amar. Elas estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade...”

Rubem Alves

15 de novembro de 2008

12 de novembro de 2008


"deixa tudo ir, quem sabe o que voltar é realmente teu" m. l. r. c.

Pressa, premência pela realização do inédito que ele sempre esperou, peça de teatro da vida que não começa, vontade de deixar a página escrita, marcada, urgência que fez ele pisar em falso, faz ainda?, tantas vezes, tantas vontade que fez dele barricata, barreira, barragem, contenção de sentimento e de pessoa, controle que não existe, desejo que ele remete, e corresponde, e volta sempre, porque o endereço sempre está errado, sempre incompleto, porque sempre o destinatário se mudou, é ausente ou desconhecido. Quem escreve na carta que é devolvida pro correiro dele mesmo são as dezenas de porteiros do seu prédio da vida, que dialogaram com seu edifício, tantas vezes, tantos anos, tantos gostos, tantas tristezas, tantos sonhos, tanta emoção, tanto não-saber, quanto castigo objetivo completamente auto-imposto. As grades tinham ficado menores, muito menores, tão pequenas quanto nunca, mas ela ainda estavam ali, a um palmo, na sua frente, quase que coladas, colidindo de forma estática, sólida, movimento do sólido, apesar do espaço entre ele e a redoma de ferro, sentia-se eternamente comprimido, apertado, sufocado, prendido a alguma coisa que não era só o chão, não era só aquela âncora-eu, não, era a sensação do nunca conseguir, do nunca chegar, do nunca alcançar, do tempo que passa e muda tudo menos ele, do tempo que ajuda mas confunde, do tempo que é atemporal pra prisão, pra gaiola, algo que está no além do palpável; sim, do que se tateia, era da ordem do intangível. Será que vai demorar pra virem abrir a gaiola, pra perceberem que ele esteve ali o tempo todo, que ele está o tempo todo, esperando, gritanto, pedindo, suplicando, clamando, ao tempo, à vida, dá pra ele o mundo, e então, quando virão buscá-lo?, quando o resgate chega?, quando a ajuda, na fase e na forma certa, pontualmente, irão acertá-lo? O pingo da interrogação sempre lembrava uma lágrima, caindo, escorrendo na forma curva, ele queria viver, voar, queria abrir as asas, sentir o vento, ele queria aquilo do até então nunca possível. Aprender a gostar de quem gosta da gente? Será que ele sempre vai gostar de quem não corresponde? Algum dia a carta chega no lugar algum, algum dia alguém vai lê-la?, algum dia essa alguém vai se encantar por ela?, vai sonhar com e vai ir até o remetente, pra buscá-lo?, tocar a campainha, olhar em seus olhos, outrora azuis, e hoje castanho misturados, vai lhe sorrir, e esse alguém vai entender o que sempre esteve escrito ali, vai estender os braços, respirar fundo, e vai abraça-lo? A proteção esperada não é só a que se tange, é muito maior, é a daquilo que não tem tamanho, nem forma, nem medida, puro conteúdo, sentimento, inspiração. Algum dia, com o alguém, virá, de vez, o sol? Talvez o alguém não exista, e o seu talvez era a certeza do não, ninguém supriu, nem o companheirismo, nem a amizade, nem o carinho, quem sabe o fraternal aconchego do lar, porém era paleativo, efêmero, instântaneo, ele era outro, havia crescido, os anos passam, as pessoas interconectam, sintetizam, tecem, e ele fica sempre ali, descendo a tirolesa, às vezes travada, às vezes curva, sempre errada, quem é você ele se pergunta, o que é você ele exclama, quem somos nós, o que é isso que eu sinto, o que é isso que desloca, que perturba, que me faz escorrer, em sons das músicas que eu procuro, consumo e descarto, e sempre busco no lixo quando preciso, o que é isso que me faz tentar colocar na linguagem o que não está digerido, que me faz tentar as letras, que me arrisca nas palavras, que me ocupa com tudo o que não é o corrente, eu quero parar de escorrer no escuro, eu quero saudabilidade, ar livre, amor que bate volta, dor que vai embora, eu quero o fim da tristeza de sempre, da solidão do vazio, não quero mais a companhia do vácuo e da idealização, do sonho que me deixa só, o que é isso que me faz eu, o que me constroi, o que me leva, que me prende, o que deixo ir, o que ficar, ficará algo, onde?, e se não ficar nada, menos do que tudo o que sinto falta é o avesso do nada, é o tudo da ausência, é o contrário do que sempre poderia ter sido e fui como pude, meu Deus, me encontra, me acha, me segura, joga a luz que não se apaga, porque o não-caminho está chegando ao fim.

10 de novembro de 2008


Que sabor? Baunilha, cola, limão, não, suco de laranja, sim, ele sabia que gostava de suco, e de laranja, e que ele era solidário, voluntário, organizado, professor, simpatia, beleza, sorriso, muito sorriso, e era shox, azul, e cachecol, e camisetas, diversas, e empolgava muito, e fazia ele sonhar, e sorrir, e treinar no espelho mil e uma caras que na hora sempre saiam a mesma, meio pasmada, estupefata, falida pela expectativa esperançosa de algo que não se nomina quase nunca. Que calor? Que intensidade? Que palavras? Que olhar? Que código usar? Timidez de um, inexperiência do outro, pura cogitação, muita vontade, e brilho nos olhos, sim, luz que arrasta, empurra, impulsiona pra o que foge da racionalidade e dos dias normais e que sempre se seguem, talvez um e-mail, talvez um bilhete, talvez um bombom, porque não um convite, um cinema, um jantar, um bar, porque não uma bebida, uma caminhada, sim, um silêncio cheio da ausência de som e impregnado de sentimento que dá toda a vontade, que tal uma música de fundo, inesquecível, marcante, envolvente, será então algo escrito em outra lingua, simples, inicial, entretanto de uma verdade que grita, proclama, anuncia, sim, desejo gigante, incomensurável, indubitável, curiosidade, coragem, medo, muito receio, gato, pulo, agarrar, rolar no chão, ali, tudo novo, tudo começo, tudo inicio, página em branco, caneta, mãos pra escrever, por escrever, diz pra ele fada azul, se ser garoto de verdade ele é, qual é o segredo, qual é a mágica, qual é a senha, qual é o momento, qual é o segredo, quando é, onde pode ser, poderá?, noite, calma, barulho, caminho, ruas à esquerda, sim, sempre a esquerda, canção que não tem fim, três palavras, nomes, imperativos de chamado, como ele, também três, encantamento, sonho, suspiro, alegria que transborda, fazer o quê, esperar é ou não saber, diz se existe o momento, diz se pode ser, diz, fala, conta, susurra, lentamente, deliciosamente no ouvido, arrepio, que corre, percorre o corpo, a pele, atiça a alma, que encerra o tempo, o espaço, e tudo o mais que nele habita e existiu, e mora, e reside, e que é domicílio, repouso, urgência, premência, positivo, é entrega, é momento, é eterno por acontecer, ele quer, querer sempre vai ser não poder?, controle, refúgio, viagem, férias, solidão, ele quer escrever, quer ter o risco do êxito, a frase, o texto, pode ser ímpar, singular, efêmero, momentâneo, um minuto, alguns segundos, pode ser que nunca se repita, nunca volte, porém daquele calor, daquela sensação que explica, sim, ele quer o que preenche, euforiza, esfuzia, satisfaz demandando, que agunia, seca a fronte, treme a base, bagunça o pensamento, inquieta o espírito, cega a razão, onda, ressaca, revolta, mar de sentir, emoção, frase, lábios, letra por letra pra não errar: kiss me.

9 de novembro de 2008


Quero trazer cada lembrança à tona. Quero lembrar cada dor, cada medo, cada inveja, cada ódio, cada rancor, cada briga, cada desejo de vingança. Quero recordar cada dia triste, cada vontade de morrer, quero reassistir cada derrota, cada falha, cada queda que me fraturou, quero rememorar cada pavor, cada pânico, cada susto, cada palavra que me cortou e fez escorrer. Quero ver aqueles dias de espera, de dúvida e aqueles anos de angústia de novo. Eu quero mexer em cada fato mal acabado, em cada memória mal assentada, em cada palavra escrita mas não entregue, em cada palavra barrada e não dita, em cada censura-tortura, em cada desejo-pena, em cada sonho-mola, em cada dia de humilhação gratuita e não respondida. Eu quero, lembrar, recordar, reassitir, rememorar, eu quero ver tudo novamente, eu quero lembrar de cada dia, eu quero reviver todos os anos, os meses, ser inteiro como aquele garoto da terceira-série, onde no cavalu um mais nove mais nove mais oito eram vinte e sete, quando pão-de-queijo era pão-de-ló e chá era refrigerante, onde casebre era mansão, onde espera era existência, fé-esperança, bombom um luxo, requinte puro e sofisticação.

1998

8 de novembro de 2008

Cada palavra tatuada em negrito.
Cada desejo gravado como em pedra.
Cada lembrança presa como estrela no alto.
Cada sonho do tamanho de um suspiro de paixão.
Cada momento costurado em mim como grito, pedido, súplica.
Amor de cada amar meu, vontade do céu ao chão.

Junior

Yes, era outra vez um sentimento parecido. Ainda não estava do avesso, é verdade, porém era muito voraz, até em demasia. São pequenos fragmentos, momentos, olhares, atenções divididas, pedidas, buscadas, de encontros que incendeiam, ativam, vivificam. Ele estava com muito medo do que sentia, do que queria, do que intimamente pedia. Ele estava com aquela sensação monstra de impotência, de querer e não poder, de sentir e não dizer, da barreira que não deixa espaço pra se preparar pro mergulho.
Ele sabia que muito provavelmente, como sempre foi, talvez essa fosse só mais uma, que talvez fosse ter que afogar como afogara todas as outras, que talvez ia ter que sufucá-la até cessar, e que mais uma vez ia dor muito, demais, e que ele talvez -e muito provavelmente- ia escolher a dor de não tentar ao mistério e a coragem sutil de pretender-se. Nesses dias em que sua vontade, casada com a presença, mesmo que breve, efêmera do que se quer, lhe enchiam de energia, de entusiasmo e lhe deixavam naquele estado eufórico de pernas moles, palavras que tropeçam e não saem, que envergonham o olhar e deixam as mãos suadas, sim, a vontade de correr atrás e pedir pra ficar, não vá ele diria, mas como justificaria, o que dizer se não pode-se dizer o que deveria ser dito? Como explicar tanta dúvida, admiração e espera? Será só mais uma conjetura de sua mente inquieta e recoberta por esperanças e cores que morrem e nascem todos os dias? Gostar faz até do cinza uma cor vibrante. Interrogações, sorrisos, pele, aperto de mão, voz, e-mail, pedido, busca, ensaio, roupa, tanta coisa pra quem se pretende, é tudo pelo que se pretende. Camisa, botão, olás, até mais, simpatia que toca o íntimo, que suscita a alma, que lineariza, como num concurso de dominós, a reação em cadeia que derruba cada peça, das milhares usadas pra desenhar o que se leva meses por cada artista. Cada vez mais a vontade de sair de ser penubra, de ser autor ao invés de ator, da deixar a sombra de sempre, era a de uma história em branco com desejo de ser escrita, de uma luz que teimava em não se pôr, de um lápis que quer escrever cada letra de cada momento pretendido, respeitar o querer ao invés de matar cada um deles silenciosamente a gritos como sempre fizera. Deseja uma fada azul que realize seu desejo e te transforme em verdade. Deseja um Falcon que te leve aonde precisaras ir em Fantasia. Deseja uma aventura como a do The Girl Next Door. Deseja respeitar cada desejo. Desejo que escreve a página e começa o livro, a despeito dos tantos anos vividos, em branco. Vontade de querer ser protagonista de sua própria história. Desejo de uma coadjuvância adequada. Desejo de equilíbrio em demasia.

Lacuna

7 de novembro de 2008


ascenção apogeu e queda da vida paixão
e morte
do poeta enquanto ser que chora enquanto
chove lá fora e alguém canta
a última esperança da luz e pegar o primeiro trem
para muito além das serras que azulam no
horizonte
e o separam da aurora da sua vida

Leminsk


Obra


4 de novembro de 2008



Suas palavras foram postas na máquina de lavar.
Depois do banho de razão, água e sabão, apesar de não encharcadas, as palavras pareciam amarradas ainda, tramadas pela centrífuga, enredadas por completo.
Ele estava com dificuldade em abrir a tampa da máquina e isso era muito estranho.
Toda vez que as palavras não saiam era porque alguma coisa estava se alterando. Dias diferentes, comportamento mutante, confusão. (?)

Centrifugar

2 de novembro de 2008

Madrugada

1 de novembro de 2008

É parcial.
Ele sentiu nojo deles hoje, uma raiva boa, quando caminhando sozinho como ele é e sempre fora, viu por alguns instantes o ex-amor, junto com pessoas as quais ele sempre quisera gostar, e naquele momento a razão concedeu certeza de que apesar de tudo de bom que ele havia feito pra ele, havia muito proeminente o mal, a forma com que fora tratado mal, com que agiram mal, e que tinham impropriedades muito salientes -sempre tiveram-, porém nunca pelo sentimento avassalador de antes, ele conseguia perceber, tatear, sentir, e principalmente permitir perceber como era.
A forma com que agiram com ele era a de um vento que soprando machucava e ele anestesiado (in)voluntariamente pelo sentimento não se fazia perceber.

Conseguiu uma liberdade nova. E estava germinando uma semente nova. Num terreno que sempre foi novo. E que continuava sendo. Encarar a si mesmo tinha sido uma aventura que ele nunca aceitou. E até o nunca sempre acaba.
Como o pra sempre que não existe e que ele acredita que pode existir, ele aceitou o desafio e mergulhou, foi muito fundo, tão longe e escuro e gelado que parecia por fim, ter tocado o solo submarino.
E a areia era fina, e fria, e pálida. E ele pode sentir a âncora, inteira, gigante, chumbo escuro, pesando, e estava como que se definindo, aquelas correntes natas, pretéritas, firmadas pelo tempo, que tinham raízes umbilicais com o firmamento ao avesso, estavam ao seu alcance.
Ele tinha ganhado um instrumento que nunca teve, e graças ao apoio ele chegou no fundo, e conseguiu perceber os traços, as cores, e se colocou permitindo a sentir.
Ele não tinha a mínima idéia do que fazer agora.
Não tinha caminho.Não sabia da chave, nem do instrumento, tampouco da capacidade e da força necessárias pra romper o céu que era ele e o englobara, sempre. Haveria um cadeado ou era orgânico, a âncora era parte indivisível, indissociável?
Um firmamento liberdade-prisão, uma ajuda parcial-cooperada, uma interrogação franca e sincera. A batalha ímpar dele. E a memória de um sol nunca visto, a lembrança de um calor nunca sentido. O reservatório de tristeza, que em lágrimas ainda não choradas, espera por se abrir. Como dique, vertente, rio, córrego, riacho, cachoeira, verão verde, gelatina fluida, libertação. Medo da dor que sempre (im)pediu a vida. Dor da tristeza. Tristeza da dor. Semente.

Germinar

Poucas palavras. Pequenos entendimentos tramados numa codificação indecifrável.
Grandes baques reais, confrontos adiados, remediados, postergados até o limiar do possível.
Encontro ímpar.
Sentimento que eclode.
Entendimento que introspecta.
Necessidade, premência em seguir.
Síntese: começar.
Vácuo, vazio, nada.
Medo, angústia da vida.
Tristeza do tamanho do céu.
Foi o dia das bruxas de 2008.

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